A frase que dá título a este texto não é minha; o texto, sim. Este, que veremos a seguir, foi escrito em 2021, portanto há cinco anos – circunstância em que o autor da frase-título estava às voltas (literalmente, veremos) com determinado fazer que nos dias atuais ele revisita somente a posteriori, recolhendo e reconfigurando seus efeitos através de outros fazeres, outras práticas. Que “fazer” inaugural foi esse que tanto nos interessou na ocasião e por que ele nos levou a escrever um texto? Os analistas, ainda que estejam interessados no que circula enquanto produções da cultura, não ocupam a função do sociólogo, antropólogo, tampouco da crítica ou da curadoria, por exemplo, diante de um artista – funções, inclusive, bem delimitadas no campo social, as duas primeiras; e no que diz respeito às produções visuais e plásticas, no caso das duas últimas. Portanto, honestamente e de forma direta, pergunto: o que o psicanalista tem a ver com isso que circula do lado de fora do consultório?
Retorno ao título para dizer que o autor é Allan Weber, que, aliás, não se diz artista. Digo isso porque ele já recusou, em alguma medida, a associação daquele significante com a sua prática. Isso não quer dizer que o que ele faz não tenha sido absorvido, de forma incontestável, pela crítica e pelo mercado de arte. Exemplo disso, cabal, eu diria, é a exposição[1] atualmente (2026) em cartaz no Instituto Tomie Ohtake em São Paulo. Trocando em miúdos, o fato de Allan Weber não se considerar um artista, ou melhor, não querer se associar, única e exclusivamente, a esse significante, não impede que seus trabalhos sejam capturados pelo imenso sistema das artes visuais. Não se considerar somente artista poderia abrir um paradoxo, ou ao menos algum tipo de embaraço para o mercado de arte, mas para nós, analistas, não. Negar-se artista não o exime de ser reconhecido como autor, ao ponto de notarmos sua assinatura nos objetos que produz, e isso amplifica o seu fazer ao ponto de alçá-lo para outros registros, não somente circunscrito no campo das artes plásticas. Aqui, refiro-me ao que interessou Lacan no final de seu ensino: uma espécie de assinatura que marca o laço entre o singular e o Outro. Não falaremos sobre esse tema no texto, mas deixo aqui aberta a questão.
O texto a seguir é um convite para que o leitor conheça e perceba certo fazer de Allan Weber com a fotografia ou a partir desta. É um convite, antecipo, para fazermos contato com a força incomum de uma imagem. O uso do termo “fazer”, quando me refiro à prática fotográfica deste autor, não é casual e implica o reconhecimento de um modo peculiar de cingir uma vida inteira. Em última análise: um modo inconfundível de resposta frente ao real. O autor da frase-título nos apresenta, portanto, uma prática que se iniciou com a fotografia e que, posteriormente (como já sabemos), irá se revelar também de forma elástica através de outras mídias e suportes. É importante sublinhar o que encontramos na fotografia de Allan Weber. São duas forças: a primeira refere-se a um fazer que atua sobre uma cidade cindida, território repartido, onde o gesto fotográfico operaria uma espécie de “curativo temporário para as feridas das desigualdades”[2]; a segunda refere-se à vibração, quase sonora, um frêmito, que estaria próxima daquilo que Lacan trabalhou[3] como capaz de deter o olhar – fixando momentos que de outro modo escorregariam na invisibilidade.
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A pandemia luziu uma determinada categoria social: o entregador de aplicativo, motoboy. Com a burguesia reclusa em seus domínios, nas ruas (quase) vazias campeavam corpos em risco. Um vai e vem pela cidade que fez (e ainda faz) circular, dentro das grandes mochilas dos entregadores, toda sorte de objetos. Na cidade desértica, entre gorjetas e avaliações virtuais, os entregadores se mantinham invisíveis ao olhar e, de certo modo, assim tomavam as ruas na sombra de seu anonimato. Seus corpos, instáveis pela velocidade das motocicletas, se mantinham à deriva de uma hipotética cena principal, como instrumentos a serviço das necessidades do consumidor enclausurado. Nessa história, que tensiona as relações entre os habitantes de uma cidade, temos notícia de uma prática, autoral, com a fotografia: “nós éramos a máquina que estava fazendo a cidade funcionar”[4].
Allan Weber é nascido no Rio de Janeiro (1992), na comunidade das “5 bocas” em Brás de Pina, atual complexo de Israel. Autodidata, largou a escola aos 16 anos, foi bolsista do curso “Formação e deformação” (2021) da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Aqui ele diz:
Nos meus trabalhos procuro mostrar um pouco da minha realidade e criar narrativas através das vivências cotidianas dentro da comunidade e meu trabalho como entregador de lanches (de aplicativo de entrega). São fotografias, objetos e ações que tensionam minha relação com elementos de uma classe social marginalizada e discriminada por sua cultura e comportamento[5].
O primeiro contato de Allan Weber com a fotografia foi através do skate. Ele conta que foi a pixação e o skate que o colocaram na rua, funcionando como uma estratégia para afastá-lo do movimento relacionado ao narcotráfico. Aprendendo a se inserir em novos contextos, Allan conseguiu tecer uma série de relações que o levaram até a pista da Lagoa Rodrigo de Freitas, zona nobre da cidade do Rio de Janeiro, onde começou a fotografar. Se, inicialmente, esses registros fotográficos tinham valor documental, funcionando como evidência – naquilo que poderia reter fatos como memória objetiva de uma prática. Em um segundo momento, essa é a nossa aposta: as imagens que produzia eram como vertigens de algo que na fotografia acontece outra vez, recriada a cada nova operação do olhar. Esse tipo de imagem, nosso argumento, mantém algo incessante, pungente, que “não pára de não se escrever”[6].
Durante a pandemia, Allan conta que precisou trabalhar como motoboy, pois com o filho recém-nascido em casa, “não havia mais tempo para esperar”. Conta que conseguiu uma moto através de um empréstimo com um amigo, um capacete, se cadastrou e começou a rodar mesmo sem habilitação formal, como ele disse: “caí pra dentro, foda-se, tô trabalhando”. Sua mochila do aplicativo ifood, “invisível e útil”, sublinha, lhe conferiu um passe livre pela cidade. Insisto em reproduzir seu texto: “Esperei receber pra comprar um filme e começar a fazer os registros, era muita coisa acontecendo lá fora, quem está dentro de casa nem imagina, e todo mundo na mesma função, de forma silenciosa”[7].
De dentro de um capacete, ao menos este que Allan Weber usou, foi possível recortar a realidade sob um enquadramento singular capaz de recolher poesia na impessoalidade das relações estabelecidas nesse circuito do delivery. A própria estrutura do capacete nos incita a pensá-lo como operador de algumas funções: objetivamente, proteção física em eventual colisão ou queda, mas não só. O capacete também confere anonimato por sua opacidade, um anteparo diante do olhar do Outro social, “invisível”, como ele próprio disse; e o capacete também engendra um enquadramento, da perspectiva de quem olha de dentro dele: uma versão possível para o conceito de fantasia. Pela janela do visor, recorta-se a realidade. Esta janela, portanto, faz do mundo uma cena, e “a janela é a condição para que haja alguma coisa que possa ser contada e descrita”[8].
Foi pela janela do visor de Allan Weber, fotógrafo, que ele pôde olhar o mundo de frente e abrir uma lente para revelar uma vida inteira. Suas fotografias não fazem parte de um acúmulo inconsequente de imagens – próprio à contemporaneidade –; inversamente, trata-se de um acervo de nítido valor documental, histórico e artístico. As imagens que produziu revelam, pela via das ressonâncias laterais, tangências, uma margem ao irrepresentável. Compromisso do artista, segundo Lacan: “isso a que o artista nos dá acesso, é o lugar do que não poderia ser visto”[9]. Seu tratamento ao real nos convida a olhar as imagens que ele inventou para acomodar qualquer coisa do impossível que não cessa, não para, mas que se arranja por fluxos oblíquos, transversos, que uma fotografia permite suportar, ao menos nestas que o autor nos oferece.
Difícil não ser tragado para dentro daquelas imagens. Seu trabalho é imenso, especialmente se considerarmos a espessura do processo: primeiro ele olhou alguma coisa para em seguida reconhecer o que para a maioria permanece invisível; depois, clicou, fez um registro; retornou seu olhar para aquelas cenas, agora como imagens, já recortadas por assim dizer, como fantasia diante daquilo que antes seria de impossível tradução. No limite do que não fazia palavra ou imagem, ele fez um livro, tecendo uma realidade dispersa na velocidade de um cotidiano (quase) inapreensível, e construindo narrativas como tratamentos possíveis para o caos, “para o fim do mundo”, como ele diz. As imagens acenam, com a mesma profundidade, para um conhecido conflito social, cotidiano, confirmando não haver, nisso que chamamos de sociedade, uma justa divisão econômica/social, herança de uma estrutura colonial e escravagista, próprias da história brasileira.
uma curta entrevista com Allan Weber
Com seu livro nas mãos, separo duas imagens. Na primeira, é possível ver um braço humano segurando uma embalagem de papelão. Esse braço atravessa uma pequena fresta, aberta no que parece ser o portão metalizado de um restaurante prestes a encerrar o expediente daquela noite. É possível ver que há cadeiras lá dentro, talvez a bancada de um bar. A imagem mostra muito pouco, mas o suficiente para se imaginar que aquela embalagem vai viajar na mochila do entregador até um destino qualquer. A casa de alguém, por exemplo. Não se vê Allan na imagem (autor daquela fotografia), assim como não é possível ver o rosto do funcionário do restaurante. Não sabemos quem preparou aquele pedido nem quem irá recebê-lo em sua casa. Vemos muito pouco, mas entendemos quase toda a narrativa, o jogo de relações e o campo de forças que se produzem a partir de um pedido virtual de entrega de comida pela internet.

Na segunda imagem, vemos somente a mochila térmica. A bag de entrega – lembro que foi o próprio Allan quem me ensinou que essa grande mochila, quase sempre em cores primárias (vermelho, amarelo, azul), chama-se bag, em inglês mesmo. Aliás, quando nos encontramos ele estava com ela. Fiquei imaginando o que havia no interior da mochila. Allan tirou de dentro dela o seu livro, como quem tira um coelho da cartola. O livro estava embrulhado em papel pardo, assim como a sacola da primeira imagem. Conversamos um pouco, ele não tinha pressa. Na imagem, a mochila já estava aberta, revelando uma pequena embalagem. Talvez a primeira embalagem recolhida para um conjunto de longas viagens, ou talvez a última que sobrou entre outras entregas. Ainda está quente?, pergunto-me diante da imagem. O pacote é muito pequeno. Uma sobremesa, talvez. Pouco se sabe sobre estes pacotes na perspectiva do entregador. Há um segredo, “um silêncio”, Allan diz. Ao entregador se confia apenas a entrega. Deste lugar, o que é possível fazer?

A experiência humana não é um campo delimitado apenas por imagens ordenadoras ou por estruturas sócio-simbólicas, mas também é território de forças disruptivas, que Lacan chamou por real. O que fazer diante do real, nome do assombro, do caos, do impossível?
Se a fantasia denuncia a presença de uma invisibilidade que nos constitui, a fotografia de Allan Weber – seu truque de luz, artifício que revela algo do invisível – consente em presentificar, mesmo em ausência, uma vida inteira. Um saber fazer mais próximo a um saber se virar que pôde recolher certo lirismo de um olhar de resistência à própria condição de invisibilidade. Esse parece ser mesmo o compromisso de Allan Weber com a fotografia: mostrar, através da sua prática fotográfica, aliada à delicadeza de seu olhar, uma vida inteira que tu não conhece.
[1] Trata-se da primeira exposição institucional individual de Allan Weber no Brasil, o que significa que ele já vem apresentando seu trabalho em mostras coletivas nacionais e internacionais.
[2] SEDLMAYER, S. Quem não tem cão, caça com gato: estudando a gambiarra. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2024. p. 14-15.
[3] LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
[4] WEBER, A. Tamu junto não é gorjeta. Revista Zum, São Paulo, n. 20, p. 161, 2021.
[5] Ibid.
[6] LACAN, J. O seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p. 101.
[7] WEBER, 2021, op. cit., p. 161.
[8] WAJCMAN, G. A arte, a psicanálise, o século. In: AUBERT, J. et al. (orgs.). Lacan, o escrito, a imagem. Belo Horizonte, Autêntica, 2012. p. 68.
[9] LACAN, J. Maurice Merleu-Ponty. Les temps modernes, Paris, n. 184-185, p. 254, 1961.

