Ver e não ver esse filme. Uma ficção em torno de um resto, real, do que não se vê. Um resto, gravado, sublinhado, mas um resto que se registrou, que se escreveu, e ao qual o filme dá destaque, lhe dá um banquinho. Se a infância nos atordoa, seja pelos ecos de nossa própria infância, seja pelos fragmentos de violência da infância ofendida de nossos tempos, tudo se reconfigura diante de meras crianças, de uma criança qualquer. Com o corpo que supomos, com uma voz que se separa.

Retirar, sublinhar, realçar, destacar a voz gravada de uma criança e dar-lhe o contorno de um filme, uma obra que satura o espectador com sua insistência real, demasiada, excessiva, nos leva à pergunta: o que fazer disso, depois de atravessar esse pedaço de real que encontramos num cinema casual? Não é um testemunho duro, longo e elaborado como Noite e neblina[2], de Alain Resnais, filmado ainda no calor do pós-guerra, ou uma elaboração a posteriori como Shoah, que resgata voz e imagem dos sobreviventes do Holocausto. A voz de Hind Rajab nos satura, quase em tempo real, com um pedido libidinal, um desejo de vida, em tempo quase real. Pode-se até vislumbrar um passo acidental aí na arte de semidizer a verdade pelas mãos da ficção. Por fim, esse filme nos leva à exaustão, satura nossa impotência quase naturalmente, ironiza a impossibilidade naturalizada com a tragédia de uma criança reduzida à sua voz e seu pedido. Retorno por fim, novamente, e involuntariamente, a Sartre, em As palavras: “todas as crianças são o espelho da morte”[3]. Frente às inúmeras figuras dos abusos, do genocídio, das violências generalizadas que proliferam contra as crianças, esse filme logrou reduzi-las a essa unidade mínima, resto inesquecível da voz que se ouve, a voz que fica.

 


[1] A VOZ de Hind Rajab [Filme]. Direção de Kaouther Ben Hania. 2025. 89 min., son., color.
[2] NOITE e neblina. Direção de Alain Resnais. 1956. 32 min.
[3] SARTRE, J.-P. As palavras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p. 23.