Fernanda Otoni: No ensino da psicanálise, a palavra amor se associou à transferência desde Freud, e Lacan a retoma em seu ensino fazendo um percurso do amor transferencial até chegar a um novo amor ao final. O amor como ponto de partida e de chegada.
Em Freud, lemos que o analisante, “impedido em sua capacidade de amar devido a fixações infantis”[1], transfere ao analista as condições de seu amor, ou seja, os traços da escolha de objeto e as fantasias em torno dele, trazendo à cena um amor forçado pela situação analítica mesma – um amor repetição. As condições da escolha de objeto descritas por Freud implicam que há um objeto primordial para o sujeito que foi fixado a partir de uma primeira experiência de satisfação, e todo amor ulterior é um deslocamento desse objeto, de tal sorte que, em Freud, o amor é transferência: o sujeito vislumbra, em um objeto x, o traço do objeto perdido. Esse traço é um pequeno detalhe que abre o acesso à matéria do trabalho analítico – é um traço que permite ao gozo passar a esse outro lugar através de sua transferência a um novo objeto.
Como bem se lê no excelente argumento destas Jornadas, escrito por Gloria Maron e Paula Borsoi, trata-se da transferência da libido do campo do gozo para um novo objeto, onde a satisfação autoerótica se realiza, uma vez que esse objeto se encaixa na janela da fantasia por suas condições particulares. A transferência, como um dispositivo passador, funciona como uma calha por onde o Um do gozo desliza a esse novo objeto – o analista –, que, por isto mesmo, se torna um objeto de amor.
Lacan dirá que se trata de um começo espesso, confuso, nada transparente. O sujeito vem porque é tomando por um “sinto-mal” e não sabe se livrar desse mal em si, um ruído sofrido como uma coisa densa, urgente e que surge do mais íntimo, o lugar do heim[2], do heimlich, causa da angústia[3], cuja verdade lhe escapa e causa o desejo de saber mais sobre isso. Entretanto, a entrada na experiência analítica exige consentir em passar a uma outra dimensão, obscura e insondável, perseguindo esse mal que quer um meio de se dizer, mas sofre resistência, como Lacan a apresenta:
No momento em que ele parece pronto para formular alguma coisa de mais autêntico, de mais quente do que jamais pôde atingir até então, o sujeito, em certos casos, se interrompe e emite um enunciado que pode ser este: Eu realizo de repente o fato da sua presença[4].
A coisa resiste e se desloca ao analista através das roupagens do amor, do ódio ou da ignorância; enfim, as ficções do pathos – ao modo de cada um. Esse deslocamento movimenta a transferência, passando a tricotar um saber com isso que não tem como desaparecer. Em análise, isso se desloca dando vida às palavras, aos sonhos e ao próprio analista e ativa a estrutura criacionista da linguagem que do nada cria ficções analíticas num esforço de bem dizer isso que emerge em si, sem saber. A transferência força a produção de um sentido em direção a um Outro-tradução – um Outro suposto.
Digamos que a psicanálise inventada por Freud botou no mundo um aparelho chamado “associação livre”, que impõe ao gozo passar pelas palavras, e com isso inventou um novo amor: a transferência. Mas a transferência desse gozo às palavras não se dá sem resistência. Freud esclarece que “a transferência, tal como a resistência, não criou esse amor, ela vai encontrá-lo, serve-se dele e exagera as suas manifestações”[5]. Ou seja, esse afeto já estava lá, não é criação da psicanálise; ele é transferido à cena analítica ao mesmo tempo em que se serve dela para resistir. Um resto segue retido, servindo-se da própria transferência como defesa ao que persiste intransferível e sobre o qual não se solta uma palavra. Para Freud, esse amor transferencial só emerge tensionado pela força da resistência – essa é a condição para que “o espírito do submundo venha à superfície”[6], sempre na forma de um engano, um tropeço – une bévue. É esse engano que permite transferir ao dizer Um gozo indizível porque é real – mas ao falar, já mente. Aí está a função da transferência: dar passagem ao Um do amor que insiste, resiste e pede tradução.
Esse gozo no falar, que todo analisante experimenta quando se entrega à análise, é uma experiência que nada quer saber de verdade, mas satisfaz na surdina a experiência de um gozo mudo, impossível de dizer. Ou seja, o falar faz sentido para escamotear o gozo que nele se satisfaz. Mas o sentido engana.
Quando Lacan disse em Louvain que “transferência é o amor”, numa referência a Freud, ele não evocava aí um amor romântico, mas um amor dirigido ao saber e é por aí que engana. A princípio, parece ser um amor interessado em saber a verdade do que sofre, elevando o analista à função de sujeito suposto saber[7], como normalmente dizemos em nossa paróquia. Contudo, na prática, esse amor só está interessado em não saber. Sua função é enganar. É um amor que engana para se satisfazer. Uma outra maneira de dizer que transferência é resistência.
Ou seja, o amor de transferência é… esse Um do gozo que desliza e se serve do analista como semblante de um objeto que não há – ora como suplente, ora como ausente, ora como suposto saber, ora como testemunha de uma perda. Toma seu corpo como uma metáfora, interpreta-o, deseja-o, engana-o. Aproxima, tropeça e se satisfaz! E a fonte dessa operação não é outra senão o real do gozo em si – que se apresenta na forma de Um gozo do amor – sempre demasiado, nunca o bastante.
Dócil às manobras desse engano, o analista com sua presença segue tal emergência, sensível ao instante de une bévue por onde se passa o que aí, mais além do amor e do saber, ressona como equívoco na forma de uma enunciação analisante.
Mais além da transferência… na prática com Lacan
No começo da psicanálise, há o amor – o amor de transferência – dirá Lacan, que dedicou à transferência o Seminário 8 e fez dela um conceito fundamental da psicanálise no Seminário 11. Em “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, ele escreve sobre a transferência, sublinhando o laço de amor ao saber a partir do significante da transferência. É quando um S1 estabelece uma conexão com S2[8], da qual nasce o sujeito suposto saber, ele mesmo uma manifestação sintomática do inconsciente. Tal como disse Lacan em “Televisão”[9], ele é produto de uma suposição. Tal como os sonhos, os chistes, os lapsos, o sujeito suposto saber é também uma criação do inconsciente transferencial, uma resposta do real.
Lacan segue seu ensino e o Outro vai perdendo consistência; é nessa medida que o inconsciente transferencial também é colocado em questão, pois a experiência analisante verifica – o que Lacan no final de seu ensino esclarece – que o inconsciente transferencial ativado pelo engano do amor ao saber é uma máquina que não cessa de produzir sentido. Como bem disse Marie-Hélène Brousse, esse “amor começa, por uma falha no muro entre verdade e saber, que não fazem ‘Um’ […] esse ‘Um’ impossível entre dois”. O amor é então uma sede, “é uma sede que, precisamente porque insaciável, insiste sempre mais e mais”[10]. A posição do analista – como intérprete da castração – aguça tal sede e eterniza a falta a ser, pois a interpretação pela via do sentido abastece o Um do amor que não cessa de se satisfazer.
Freud passa por tal impasse em seu texto “Análise terminável e interminável”, e Lacan dele extrai consequências para o seu último ensino, quando também se dá conta de que o inconsciente transferencial não leva ao final de uma análise, pois se infinitiza através de um gozo sentido. O amor ao saber faz obstáculo – é uma defesa ao real que o causa, “causalidade que opera em um nível mais profundo que a transferência, no âmbito que Lacan chama de satisfação – e a análise é o meio dessa satisfação urgente”[11].
Como consequência dessa virada, Lacan praticamente quase não falará mais sobre a transferência. O privilégio é dado aos casos de urgência, e o analista é um Outro que segue a coisa que urge, impossível de apreender e que preside a existência. Se o falasser retorna a cada sessão é por causa disso e não pela transferência. O sujeito suposto saber perde seu posto, mas ganha uma releitura, com Lacan, em seu Momento de concluir:
O que digo da transferência é que a avancei timidamente como sendo o sujeito suposto saber. Um sujeito é sempre suposto; não há sujeito, evidentemente – há apenas o suposto. O que isso pode bem querer dizer? [Que a transferência] não é outra coisa senão o suposto saber ler de outro modo[12].
O saber que conta do lado do analista é que “ele sabe como operar”[13] como um cirurgião, cortando a conexão de sentido da cadeia significante, entre S1 e S2. Ou seja, se o inconsciente transferencial coloca em ação o sujeito suposto saber e a associação livre, visando ao sentido, o analista, como o cirurgião, corta. De tal sorte que no corte de cada final de sessão deixa um resto a dizer, acerca-se do “objeto a, sob a forma do etc…”[14], abrindo a passagem a uma outra dimensão onde ressoa “outra coisa do que é dito com a intenção de dizer”[15]. O não-todo, como lógica do corte, força o que pode advir dessa fenda, o som da língua no corpo… ler o que ouve de outra maneira, um novo modo de viver a pulsão mais além do sentido. Não há relação. E isto é um respiro e não mais um sofrimento. O depoimento de Susanne Hommel evidencia essa transferência na prática:
A palavra alemã Gestapo, por meio de um gesto no corpo, gest à peau, passou para a língua francesa. Um ato de tradução. A doçura desse gesto adoçou minha recusa dessa língua. Esse gesto também fazia um corte, uma refenda ali onde o sujeito é sua própria divisão. Ali onde ele está o mais próximo do real[16].
Um cortar que refaz a fenda – refenda. Trou que secreta do corpo a substância sonora na forma de um equívoco criativo com as palavras. O analista corta, mas a interpretação é do falasser. O analista segue o que o analisante lê com os seus ouvidos. É com esse Um que se pode inventar uma saída original, um saber fazer com “a” suposto em um Outro que não existe. O analista corta para manter aberta a fenda pois, quando aí se está, o real é criativo!
Se o trabalho analítico segue dócil as ficções da verdade, no tempo em que dura uma análise, é na condição de a cada sessão ir isolando o S1, esse Um sozinho, última paragem antes do real, como indica Miller. O corte entre S1 e S2 dá a ver outra coisa que não o sentido – o furo no Outro – o s de A barrado: única garantia que se pode obter de uma análise. O ato analítico opera como uma ajuda contra o sujeito suposto saber – ajuda a empurrá-lo para o desfiladeiro do des-ser, enquanto segue o falasser no deserto de sua solidão, até desaparecer.
Nessa descida, o que se vê é que só há o Um e o a como semblante do que não há. Só há o gozo e o furo, que se abraçam para inventar uma nova ficção para ser – mas dessa vez uma ficção na qual não crê. “Todo sintoma se enlaça nesse lugar do Um furado. E aí se encontra, por mais surpreendente que isso possa parecer, sua face de satisfação.”[17]
No ensino do passe de Anne Lysy[18], ela conta que entrou em análise para saber o que é ser uma mulher se esforçando para ver claramente. Tomada por “um demônio de fazer ligação”, buscava conexão entre as coisas, queria ver claro, carregava seus livros em uma mochila para onde quer que fosse, a serviço desse gozo infinito, buscando a última palavra. Ela destaca duas interpretações do analista: “No fundo do inconsciente não há nada”, seguida de outra: “largue seu saco”. Ou seja, não há significante da mulher, o que ela só pode ler ao atravessar o deserto silencioso, sem tutor, sem palavra. No final da análise, há uma mudança de registro: as palavras antes usadas “para ver claro” se modificam, “não são mais as mesmas” (É. Laurent). Ao largar a mochila com seus livros de saber, entrou num outro registro e, para avançar nessa zona de sombra, não serve dar sentido às palavras. “Há palavras, quando a gente entra na zona do lado pequeno a, que não são exatamente as palavras das luzes.”[19]
Ao fim da cebola descascada, num só golpe, surge o mais puro nada, cuja travessia leva do “Não há relação” ao “Um” que há – que já estava lá, opaco e iterativo, mascarado no teatro do Outro, sob o invólucro das paixões. No final – como lemos em nossos livros de cabeceira – surge o sinthoma escrito com a letra h. Estaria lá desde o início, como uma letra muda do gozo, fora de lugar, como o que urge e pede tradução desde a porta de entrada?
Com essa letra que resta desalojada do Outro, cabe a cada um inventar um laço novo – um laço com o Um que pulsa de um vazio. “Onde existe o Outro barrado é necessária a invenção. Não há mais nada a descobrir senão o vazio de A barrado.”[20] E por essa via, o discurso analítico garante sua promessa de “introduzir o novo”[21].
No lugar da descoberta, a invenção. Um programa novo!
Enfim… Não se faz análise sem o amor
“Uma psicanálise demanda amar seu inconsciente”[22] por ser o único meio de estabelecer uma relação entre S1 e S2 e fazer rolar a trama simbólica. Trata-se da necessidade que vai além das necessidades, tal como disse Lacan no Seminário 7, A ética da psicanálise, uma necessidade de gozo, urgência do corpo falante que desperta com um “sinto-mal”. Cabe ao amor abrir a porta e fazer existir o inconsciente como saber, o inconsciente transferencial, o sujeito suposto saber, cujo destino será desaparecer junto com “os efeitos de verdade que o sujeito amou, pois o amor à verdade é também uma defesa contra o real”[23]. Um amor fadado ao fracasso!
Mas perdido o amor ao saber, ao sentido, ao Outro, qual o destino do amor de transferência? Leio Miller: “No final de uma análise há uma transformação da transferência, mas não seu desaparecimento. É um final de análise no qual a descoberta do Outro barrado, a descoberta de que não há Outro do Outro, de que não há Outro, dá lugar a uma invenção.”[24]
O amor repetição tende a esmaecer ao final, quando o objeto revela ser semblante do que não há. Mas o Um do amor existe, não mente, sua matéria é real. Afirmar que a relação não existe não nega a materialidade do amor enquanto Um. Impossível negar o real do gozo a partir do qual o amor e qualquer outra paixão se constituem como tal.
Um novo amor é a aposta analítica, sem elogio ao romântico e à exaltação, como disse Éric Laurent. Uma vez passados os amores com a verdade, resta esse Um, afeto cuja força sempre esteve lá, broto de vida, e que se serve do real que o consiste para inventar novas formas de acontecer e se satisfazer. Uma substância inventiva que parte do mesmo de sempre – do furo original, o nada matriz da criação, onde não há mais ninguém, o lugar de ninguém[25].
Laurent lembra que, para Lacan, “aí está a chave de tudo: é delirante!”[26] Numa análise, esse é um lugar que dá passagem a essa outra ditmension, onde o eu se evapora junto com o Outro, essas supostas criaturas concebidas para satisfazer o que insiste de uma existência que segue irredutível, impossível de apreender. Afinal, isso que em si fervilha e faz sonhar é uma coisa cuja força brota de um real insondável, causa o desejo e inventa um monte de coisas, sem a isso se apegar.
O amor que surge ao final talvez seja, por um lado, só uma palavra nova, uma letra, um traço que faz sinthoma e, mais ainda, uma força que inventa, do real – que a constitui, um novo laço social. O amor talvez seja apenas um outro nome do Um do gozo, que no início de uma análise desliza até um Outro supostamente inventado – para dele se separar ao final… e seguir sendo essa força tamanha a favor da vida que segue, substância presente na invenção de respostas aos impasses do cotidiano, na expressão de um desejo que pulsa na luta junto a mais alguns outros e, decididamente, presente na simplicidade de um sorriso que, no canto da boca, exclama sozinho – assim do nada – um tracinho de satisfação da existência, que ninguém sabe explicar o que é e não há ninguém que não entenda o que seja.
Quando isso acontece é amor! Um amor original, só seu e de mais ninguém, que se transfere ao mundo… Um amor resposta de Um real, sua loucura!
Ana Lucia Lutterbach: Na escrita da Fernanda está presente a analista e a analisante o tempo todo! Ela vai falando de um lugar e do outro, e a experiência vai ressoando. É uma escrita vivaz, inquieta. Cada proposição sua engendra uma nova pergunta. Sua letra não é de forma, ao contrário, forma-se a cada vez que ela extrai algo da sua prática. Hoje, ela trouxe a transferência em sua vertente do amor, em Freud, em Lacan e no último Lacan, mas sempre a partir de uma leitura feita por ela, uma leitura de sua prática.
Fernanda, da riqueza que você nos trouxe, eu destaco duas questões. A primeira é sobre o que você chama a virada do Lacan em relação à transferência, quando o privilégio não é mais o saber, ao contrário, ele passa a ser obstáculo. O que está em jogo nessa virada? Quando a gente fala do momento atual, é difícil encontrar palavras para dizer dessa experiência de uma nova presença do real na clínica. O termo transferência está lá desde o início, e agora continuamos trabalhando o conceito de uma nova perspectiva. Queria que você falasse um pouco sobre essa perspectiva, a virada que você mencionou.
A outra questão é sobre o novo amor, já que você privilegiou o aspecto de amor da transferência. Por que falar em novo amor? Esse novo amor a que você se refere, ele é uma referência apenas à transferência no final da análise? Ou, depois de uma cura, depois da constatação da não relação, há o surgimento de uma nova maneira de amar? Eu acho que você conclui seu texto de uma maneira muito interessante, falando um pouco desse amor que é um tracinho, um risinho no canto da boca. Isso é o que você chama de um novo amor?
Fernanda Otoni: Obrigada, Ana. A leitura é importante no sentido de abrir aquilo que o texto transmite, mas no qual a gente não se detém. Realmente, a questão da virada foi um ponto que me orientou. Essa virada em Lacan, a partir da clínica, da prática dele, da pesquisa, é uma virada que permite ir além do amor imaginário, simbólico, em direção ao amor real. Isso vem da experiência analítica, porque Lacan revira o próprio ensino o tempo todo. Ele revira a partir do que a clínica vai exigindo, ele extrai algo que força a ir mais além, ao real da prática. E no que diz respeito à transferência, parece-me que a transferência articulada ao amor imaginário, ou ao amor ao simbólico, ao amor ao saber, ela provoca uma infinitização. Talvez tenha sido isso o que Lacan se deu conta, dessa fábrica de sentido. No próprio matema da transferência há uma infinitização que não permite chegar ao final de uma análise. Uma análise é interminável através da linha desse gozo-sentido. Então, quando ele sugere essa decomposição do sujeito suposto saber para o sujeito suposto operar, ele vai na vertente do corte entre S1 e S2. O corte é a única maneira de poder fazer ressoar, nesse furo que se abre, algo dessa substância que já estava lá, mas que já não serve mais ao sentido. Esse pequeno fragmento da Susanne é fantástico porque permite ver que o ato do analista foi o corte entre S1 e S2. “Às 5h da manhã me acordava, era a hora da Gestapo…” O ato faz um corte e então surge uma outra coisa, um ler de outro modo. Mas não é o analista que lê de outro modo, é ela que escuta gest à peau. Há algo do equívoco que sopra desse corte e que só o falasser pode ler. O analista não sabe o que o corte vai produzir; o analista corta o sentido e aguarda o que vai advir. O que vai advir sempre diz desse Um (S1) que está lá e que o sujeito encontra outra maneira de interpretar, e isso desloca.
Sobre o novo amor no final, acho que isso é uma questão. O amor não é liquidado e nem desaparece porque é a matéria. Isso que a gente chama amor no início é a matéria do Um real, é a substância que se desdobra no inconsciente transferencial, no romance familiar, nas histórias das ficções analíticas etc. Essa matéria vai se depurando e é isto o que resta ao final: um amor mais orientado ao real. No final do ensino de Lacan ele vai decair numa série de “não há”: não há sentido, não há relação sexual, não há a mulher, não há o Outro. Mas o “não há”, em si, é um buraco sem fundo; então é preciso, desse “não há”, extrair o que há. Esse há, esse Um que há e que resta, que estava lá desde o início, é com isso que se inventa algo, se não o sujeito está morto. Como ele continua vivo, esse Um vai se alojar em alguma coisa, mas sem esse invólucro da crença, do ideal. Esse amor novo que surge ao final talvez seja um novo modo de viver a pulsão, mas sem a cola, um amor que decola. Parafraseando a proposta do Lacan do cartel sobre o decolar, você se junta para fazer alguma coisa, você ama aquilo que você está fazendo, e depois isso cai, para amar outra coisa. É o Um que vai se deslocando.
Ondina Machado: Fernanda, você não faz poesia, mas você nos evoca poesia. Eu queria te perguntar algo a partir da questão do amor real. Qual é a diferença entre esse tracinho no canto da boca, que você trouxe como o novo amor, e o amor como aqueles sinais de que Freud falava… Por exemplo, quando Freud fala dos olhos de betume, citando Dante. Qual seria a diferença? O tracinho é enigmático e o olho de betume tem uma condensação, talvez?
Fernanda Otoni: Há o traço na vertente do objeto, e o que eu inferi, que como analisante eu experimento e como analista eu sigo, que é o tracinho que guarda o Um que o objeto envelopa – não mais na vertente do objeto, mas na vertente de uma satisfação. Esse tracinho, esse amor enquanto Um que se expressa no sorriso, no fazer junto com mais alguns outros, na invenção de uma resposta aos impasses do cotidiano, ele guarda menos a dimensão de objeto e mais a satisfação que se realiza nesse fazer, nesse tracinho do sorriso no canto da boca. Há uma satisfação que se realiza ali. Não é o objeto, ainda que guarde a mesma matéria, que está lá envelopada pelo objeto, que é o Um do gozo, esse excedente, o mais-de-gozar.
Marcus André Vieira: Queria que a gente improvisasse um pouco mais sobre a invenção. É necessário que a gente pense no laço a partir desse ponto que você citou no final, mas que está também ao longo do percurso de uma análise: o real como uma coisa que não enlaça e a invenção como espaço do laço. Como o analista acolhe o que é a invenção? Como nós acolhemos? Como lidamos com isso de que não há laço, mas que precisamos continuar? Como lidamos com ter que fazer laço mesmo depois do final? Temos que fazer, não é possível que no final da análise a gente fique desenlaçado. Mas como? Podemos discutir um pouco mais sobre a materialidade da invenção, e não sobre a invenção como uma coisa que acontece e que não sabemos dizer o que é. Você deu pistas agora, então queria pedir que falemos mais a partir dessas pistas: como a invenção é feita?
Fernanda Otoni: Para seguir nessa pista, vou reter do seu comentário a palavra ‘materialidade’. Isso está presente do início ao final de uma análise, no momento do desenlace e no momento do laço. Há uma materialidade em jogo. Pulsão, libido, gozo… damos vários nomes para isso. Quando essa matéria desenlaça, isso solto, é angústia, é errância. E quando isso conecta, vemos uma localização, uma certa solução. Quando essa matéria conecta, desde o início é invenção. Desde o início, quando se procura um analista… por que esse e não outro? O analista aí já é uma invenção, um jeito de conectar a matéria desenlaçada à análise, a partir de alguma coisa que lhe dê lastro. Mas isso vai se depurando. No início se crê que é, o analista é. Quando se cria uma solução em análise, é isso. “Olha só, o que eu sonhei, é isso!” Há uma crença nisso. Aos poucos, essa matéria da crença vai se deslocando para outro lugar, um trabalho de fazer com a verdade, como estrutura de ficção, fazer com a matéria que resta, algo que se segue. Ela se transfere para outra coisa. A invenção do final é uma passagem, não é uma permanência. Isso passa. Podemos ver isso nos testemunhos do passe. A formulação que se chega ao final guarda essa matéria. Mas é um momento, uma passagem. Não fixa uma verdade. É a invenção da vez, um pouco mais advertida quanto à sua eficácia de amarração permanente. Há algo de uma fluidez, algo volátil que segue.
Ruth Cohen: Quero fazer um comentário a partir dessa última fala de Fernanda sobre o enlace na direção do real. O real não faz laço? Se a gente pensar no nó borromeano, sabemos que não dá para fazer o enlace apenas do simbólico com o imaginário, precisamos do real. Como é que você veria esse novo amor no enlace com a Escola? Nós estamos sempre nos deparando com a Escola e as questões da Escola. O tempo todo trabalhamos com outros, e com as diferenças, e os sintomas… E esse novo amor, como se enlaça na Escola?
Fernanda Otoni: Eu acho importante o que você está dizendo. O real, ele força o laço. Ainda que ele não seja o laço, está no laço enquanto forçagem. Se nós temos, por exemplo, a dimensão do semblante, temos esse laço entre simbólico e imaginário – uma montagem que confere consistência ao que chamamos realidade – mas não é sem o real, no sentido de forçagem. Há um real que força o semblante. Justamente porque o real é impossível de apreender é que ele força esse laço entre o simbólico e o imaginário nas ficções, nos semblantes. O real participa do laço. A escola é uma comunidade onde a gente se encontra para falar da solidão da nossa prática, cada um fala da sua enquanto Um sozinho, mas isso ecoa. O eco, a ressonância, têm uma função, porque aquilo que se satisfaz enquanto trabalho, enquanto laço, isso não é o mesmo sem esse retorno, sem esse eco. Desse autismo do gozo é preciso mais alguns outros que ressoem, isso traz a satisfação no trabalho. Nós temos a Escola e, mas além da Escola há também a solução de outros coletivos que servem para alojar a solidão de tantos outros, onde é possível o ressoar daquilo que cada um coloca de seu para fazer laço social.
Paula Borsoi: Fiquei pensando sobre o momento em que você fala que o desvanecimento do Outro é desvanecimento também do eu. Isso é um processo que não se faz sem amor – digo isso como analisante, mas isso tem efeitos na minha prática como analista também… Esse desvanecimento do eu força um novo laço. O novo amor tem a ver com uma nova maneira de lidar com isso que se esvai. É como se o sujeito fosse acabar, só que não acaba, ele permanece de outra maneira, com outro laço. O amor está ligado a isso, a essa experiência de todos nós, e o analista acompanha.
Fernanda Otoni: Quando se começa a falar, é preciso consentir à outra dimensão, e é nesse lugar que o eu evapora. Toda a consistência do eu e do Outro, isso se perde quando se procura as palavras para dizer o que não se sabe dizer; Lacan diz dit maison, dimensão. Em uma análise, ao frequentarmos essa dimensão e percebermos que o que ali se produz é estritamente singular, o lugar esvazia-se do Outro. Aproximamo-nos, então, de uma verdade que não tem consistência no sentido. Por isso que eu pensei que o eu evapora: essa consistência perde a centralidade para dar lugar a um vazio de sentido. É daí que brota o soprar de uma invenção. Essa substância vai sonoramente se amarrando e inventando uma solução.
Ana Tereza Groisman: Encontramos em Lacan essas reviravoltas em que ele retorna ao que foi formulado a partir de outro ponto de vista que ele mesmo nos oferece. Sou apaixonada pela frase que está no Seminário 1, “de repente, eu realizo o fato de sua presença”[27] – se a gente lê a partir do segundo ensino e do último ensino, essa presença muda de estatuto. Há algo da transferência à urgência que se produz por uma operação do próprio analista. Esse sujeito suposto saber cortar faz a virada da transferência ligada ao sujeito suposto saber para a urgência, para isso que urge e que o analista deve seguir no tratamento.
Eliana Bentes: Queria te perguntar como fica o consentimento para entrar nessa outra dimensão na psicose, na transferência com na psicose.
Fernanda Otoni: Ana Teresa, acho que essa frase diz muito… Ela está no Seminário 1 de Lacan e de novo no último escrito dele, no “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”[28], em que ele toca na questão da urgência. Eu também li dessa maneira. Ele diz “quando se está mais próximo da coisa mais quente, da coisa que urge, de repente se realiza o fato da sua presença”[29]. É uma frase equívoca. A transferência desse quente ao analista é a transferência disso que urge, desse quente que o engana na transferência. Está no início, na porta de entrada da análise, e vai se decantando, reduzindo, até o final.
Éric Laurent, em sua fala no congresso de Barcelona[30], quando trata do analista como aquele que segue o impossível de apreender, me fez recuperar algo do Lacan ao final, porque isso é algo que a psicose ensina à psicanálise em relação à neurose. Eu não gosto muito dessa classificação entre neurose e psicose porque eu acho que o que se segue é o falasser. A clínica ensina que quando se está na posição de semblante de um Outro que segue, como placa sensível, se está atento a isso que urge, ainda que com lógicas diferentes na neurose e na psicose. É em relação ao real que podemos orientar a nossa prática com o manejo da transferência.

