Carolina Koretzky: O tema da transferência na prática analítica é muito vasto; por isso, optei por destacar um significante presente no título da apresentação: paradoxo. As variações da transferência em uma cura analítica estão sujeitas a um paradoxo. Um paradoxo é definido como uma associação de dois fatos ou de duas ideias contraditórias. O termo paradoxo está presente na lição XXII, de 4 de junho de 1969, “Paradoxos do ato psicanalítico”[1], do Seminário 16 de Lacan, De um Outro ao outro. Sabemos que Lacan dedicou todo o ano anterior a trabalhar o conceito de ato analítico, distinguindo-o de outros tipos de atos.

Gostaria, então, de destacar o paradoxo que está no cerne da transferência analítica, pois o manejo da transferência e os atos do analista ao longo de uma cura devem ser pensados a partir de um lugar paradoxal: entre o lugar dado pelo analisante como Sujeito Suposto Saber (SsS) e o lugar do analista como objeto. A transferência é um Jano, uma cabeça com duas faces. Existem duas faces na transferência analítica. Então, qual é esse paradoxo para o qual Lacan aponta? O que ele indica? Para onde ele nos leva?

Poderíamos resumir esse paradoxo da seguinte maneira, a ser desenvolvido posteriormente: o neurótico começa a análise pensando que quer saber e o analista se deixa enganar por essa crença inicial. Mas, no final, o neurótico percebe que não queria saber de nada e que se defendeu da verdade de seu gozo por meio do Sujeito Suposto Saber. Se é claro que o sujeito se defendeu, também é verdade que foi graças a essa crença inicial que ele conseguiu se aproximar de um certo real – eis o paradoxo do ato analítico.

O enigma do início

Dissemos que o neurótico começa a análise pensando que quer saber e o analista se deixa enganar por essa crença, porque o amor de transferência e a busca por um saber são o primeiro remédio que o sujeito encontra diante do abismo que se abriu diante dele. No início, o sujeito chega com um enigma, um buraco que se abriu no conjunto das significações que constituem sua realidade, uma perturbação diante da qual ele não tem mais resposta. Um absurdo que “vale como encontro com o real”[2]. Esse encontro se apresenta sob diferentes formas em cada caso, mas sempre é possível encontrar – o que deve ser verificado nas entrevistas preliminares – uma irrupção ou uma travessia abrupta, isto é, o sujeito tem a experiência de uma primeira destituição subjetiva. O sujeito chega com um resto, pois os discursos que circulam não são mais de nenhum recurso, ele chega com seu “bilhete de ingresso”[3], pois o sujeito acaba de tocar, de vislumbrar a inexistência do Outro.

Em um artigo intitulado “Clínica sob transferência”, Miller destaca que o início da experiência analítica poderia ser qualificado como um “quase-passe”[4]. A diferença com o fim, é que, diante desse encontro com o Real que inaugura a experiência analítica, o sujeito imediatamente encontrará um remédio, e esse remédio, esse curativo que vem cobrir a inexistência do Outro vislumbrada, chama-se transferência. O sujeito se dedicará, no início da análise, a fazer consistir novamente esse Outro na forma da transferência; fazemos consistir o Outro amando-o.

No entanto, o analista responde à demanda de amor com o desejo de saber[5]. Sem satisfazer à demanda, o primeiro movimento do analista será procurar fazer com que o amor da transferência se transforme em amor pelo inconsciente. Assim, o sujeito parte em busca de uma verdade oculta e tenta produzir sentido diante do dissenso: “O que isso significa?”. O sujeito vai elucubrar em torno desse buraco que se abriu. Uma das definições mais claras sobre o Sujeito Suposto Saber está no “Liminar”, de Como terminam as análises[6]. Neste texto, Miller destaca, a respeito do surgimento do Sujeito Suposto Saber, “que é menos a fé no analista do que a crença do sujeito de que ele é, sem percebê-lo, assujeitado a um saber do qual ele não tem consciência, mas que é legível, decifrável, interpretável”[7]. Esse saber que o paciente pensa ignorar está nos buracos que ele vai encontrar em seu próprio discurso e na sua própria intenção de significação.

Cabe destacar, contudo, que a questão que impulsiona o desejo de ser um analisante “o que isso significa?” não é aquela que orienta o ato analítico. O cerne do paradoxo está aí: como o analista se posicionará diante dessa busca de sentido do sujeito? Como ele vai responder? A partir de quê? O sujeito que experimentou um primeiro exílio tenta preencher esse buraco com explicações, sentidos, verdades sempre parciais. Como vamos nos posicionar diante desse movimento quase automático do sujeito? O movimento automático do neurótico e o paradoxo do ato analítico começam aí, no início mesmo da análise.

Nós, analistas, ao propormos a regra da associação livre, fazemos ouvir isso: diga qualquer coisa, diga tudo o que lhe vier à cabeça, sempre há uma razão, mesmo que você não a conheça. Por que temos fé nisso? Por que acreditamos nisso? Essas são perguntas que Lacan faz no Seminário 16. E aqueles que por excelência vão entrar nessa experiência, os “sujeitos privilegiados”, diz Lacan, são os neuróticos: “o neurótico procura saber”[8], mas é quase um reflexo, nem precisamos de incentivá-lo. O neurótico vai acreditar imediatamente, indica Lacan, nesse Outro como Sujeito Suposto Saber. Toda a experiência analítica é guiada pelo que Lacan chama, referindo-se a Leibniz, de “princípio da razão suficiente”, que indica que nada é sem razão, não há efeito sem causa.

Véu, máscara e semblante

No Seminário 8, A transferência, Lacan destaca um ponto, uma demarcação, já no seu final: “Não existe coincidência – diz Lacan – entre o que é o analista para o analisado no início da análise, e aquilo que a análise da transferência nos permitirá desvelar quanto ao que está implicado […]”[9]. O que é essa coisa que está implicada?

A idealização do analista no início da cura permite se aproximar do núcleo da repetição, mas também oculta, mascara outra coisa. Encontramos o paradoxo: é uma idealização necessária, a ser sustentada, para o início do trabalho, mas ela encobre algo que deveria se revelar no final.

O fim da análise implica uma certa revelação do que essa suposição de saber ocultava. Mas o que essa suposição oculta? Ela oculta o valor de objeto do analista. O fato de que o analisante não lhe supõe apenas um saber, mas que o analista também será o depositário de um objeto seu, um objeto que lhe pertence. É aí que a transferência se atualiza. Há um objeto de gozo que se revelará para cair. A transferência não é apenas amor e saber. Ela tem também um lado pulsional. A causalidade do sujeito não é redutível apenas às palavras do Outro, aos significantes primordiais do Outro como figura do destino. Trata-se, aqui, de encontrar a singularidade do objeto pulsional com o qual e pela qual o sujeito sutura a falta a ser.

No neurótico, é claro que o objeto já foi perdido, mas se trata de que ele possa vê-lo como perdido, que possa subjetivar o valor de recuperação do gozo diante da perda. Saímos aqui da perspectiva do que o Outro disse, previu, anunciou e todos os significantes com os quais o sujeito constrói um destino para nos aproximar da perspectiva da saturação, da compensação por um objeto. Em seu texto “Em vista da saída”, Miller diz que o que ocorre na análise é que “o investimento libidinal se contrai, se condensa, se densifica e se isola sempre mais, ao mesmo tempo em que o sujeito se descarta dele”[10]. O sujeito percebe nesse movimento “até que ponto esse quantum de libido comandava seu destino e sustentava seu mundo”[11].

A psicanálise não é apenas uma experiência de decifragem das formações do inconsciente, mas também de capturar esse núcleo de gozo do sintoma. Assim, entendemos o movimento que marca o Seminário 16, De um Outro ao outro, presente no seu título, que é o próprio caminho da análise conduzido até seu termo. Lacan usa uma formulação muito esclarecedora nesse seminário: ele diz que o analista se torna “a ficção rejeitada”[12] ao final dessa operação. No final, percebemos que “o ser do analista […] se forma a partir da própria libido do paciente”[13]. Eis o paradoxo: o movimento do fim é aquele em que o objeto se revela para decair. O analista é evacuado no mesmo movimento de evacuação do objeto, porque o analisante percebe até que ponto a busca de uma verdade última lhe serviu precisamente para não saber nada sobre esse objeto. Há um horror de saber com o qual é preciso se confrontar para terminar esse processo, mas o processo analítico só pode começar por esse velamento.

Lacan usa esse termo no Seminário 16 porque ainda não havia cunhado o termo de semblante e é somente no final, quando a causa final é revelada, que todo o processo ganha sentido retroativamente. Lacan diz que, no final, o analisante pode articular “o nó de gozo na origem de todo o saber”[14]. Enquanto o sujeito espera um saber proveniente do Outro, ele pode continuar a encontrar nele uma certa satisfação pulsional. É por isso que a pulsão revela a inexistência do Outro, quando percebemos no final que, por intermédio desse Outro, que pensávamos tanto amar – ou odiar – se realizava a “lei inexorável da pulsão do mais-de-gozar”[15]. É por isso que, como ele diz: “a posição do analista pressupõe o acesso ao reverso do amor”[16] – pressupõe que o próprio analista tenha experimentado a revelação do fundamento pulsional por trás dos atributos narcísicos e agalmáticos que o amor nos proporciona. Trata-se, então, do luto do amor narcísico. Se o analista ama demais seus analisandos ou se ama demais ser amado, isso pode tornar muito difícil o fim da análise. Para entrar nas considerações finais sobre o paradoxo do ato analítico, então, a questão do desejo do analista parece ser fundamental.

O valor de uso do semblante

Lacan, no Seminário 15, O ato psicanalítico, diz o seguinte sobre o valor de uso do semblante:

Esse ato, parti dele há pouco, definindo-o como aceitação, suporte fornecido pelo psicanalista ao sujeito suposto saber, e isso ainda que ele saiba que esse sujeito suposto saber está votado ao des-ser. Trata-se, portanto, de um ato em falso, se assim posso dizer, pois ele não é o sujeito suposto saber, pois não pode sê-lo. E, se há alguém que sabe disso, é o psicanalista, acima de todos[17].

Essa frase, tão precisa e clara, alerta para os perigos do analista identificado com o Sujeito Suposto Saber. Vimos que o desdobramento das associações e da cadeia de significantes desenha o contorno daquilo que fica de fora e que não consegue se simbolizar, uma parte do gozo que não é simbolizada. O analista, na medida em que causa o desejo, vai, no semblante, pelo semblante, apoiar no início essa busca da verdade última e pelo sentido que pressupõe um recobrimento do real pelo simbólico.

O que é o semblante? Há muito a dizer sobre o semblante, mas o mais importante a reter é que, na psicanálise, o semblante não é o falso, não há nenhuma conotação depreciativa no conceito de semblante em Lacan. O semblante vai reunir, em um só conceito, o simbólico e o imaginário, de um lado, em disjunção com o real, um real que permanecerá para sempre cortado, disjuntado, separado dos outros dois registros.

O semblante não é o inautêntico; dizemos semblante porque se trata de um conceito que mostra que esses registros são heterogêneos em relação ao Real. É precisamente a partir de sua heterogeneidade e de sua disjunção que Lacan tentará pensar por qual meio algo poderia, apesar de tudo, ser escrito desse gozo impossível de dizer. Portanto, não há nenhuma falsidade na ideia de semblante, mas esse conceito será usado para designar o que se opõe ao real. É fundamental não falar de semblante em termos de falsidade, porque é a única ferramenta que temos para nos aproximarmos do real. Denunciar a ineficácia dos semblantes, denunciar que tudo é gozo, que o verdadeiro está lá no gozo, beira o cinismo.

O problema do cínico é que, ao denunciar que tudo é semblante, ele rateia o real. Portanto, trata-se de saber como faremos bom uso dos semblantes, porque é só graças à boa ordenação dos significantes-mestres que surge um real. Mas a heterogeneidade dos registros continua. É por meio do semblante que temos acesso ao real. Falo do uso do semblante porque, como a transferência, simultaneamente ela encobre e revela o real em jogo. O sujeito não tem acesso à verdade de seu gozo por causa da suposição de saber, ele se defende do horror que lhe produz o encontro com essa verdade. Mas é graças à suposição de saber que ele se aproxima dela.

Um grande sambista da Estação Primeira da Mangueira, Nelson Sargento, deu talvez a melhor definição do manejo da transferência na experiência analítica com o samba intitulado Falso amor sincero. Ele nos diz: “O nosso amor é tão bonito, / ela finge que me ama / e eu finjo que acredito”. Falso amor sincero: a orientação é, portanto, fundamental. Não caiamos no cinismo que não dá nenhum valor ao semblante, mas também não caiamos na fascinação pela suposição do saber. As duas posições nos fazem ratear o Real. De fato, essa suposição (esse semblante, podemos dizer), vamos respeitá-lo: nem o denunciar, nem o encarnar, o que seria o último grau da infatuation analítica. É por isso que Lacan, no início do Seminário 15, fala de “fintar” (feindre, em francês): o analista deve fingir algo. Ele deve fingir o quê? Ele deve fingir não saber a que se reduz o SsS.

Ouçamos novamente Lacan: “O que constitui propriamente o ato psicanalítico é, de modo muito singular, essa finta (feinte) por meio da qual o analista esquece que, na sua experiência de psicanalisante, pôde ver a função do sujeito suposto saber se reduzir ao que ela é”[18]. É indicação impressionante: a orientação visa uma redução da função do SsS para um objeto resíduo da operação: esse objeto que obstrui tem que cair para deixar aparecer um vazio. Portanto, nossos atos visam destituir o Sujeito Suposto Saber. Miquel Bassols fez um comentário muito interessante durante a apresentação do Seminário 15 em Paris: a indicação que Lacan dá é de se apoiar no Sujeito Suposto Saber para destituí-lo ao mesmo tempo, apoiar-se sem acreditar nem se identificar com essa função. O analista como sujeito não é o agente da operação. Acreditar que se é o agente, isso é a impostura; o agente é o que causa o processo. Lacan incita a fingir ter esquecido o que sua experiência de analisante lhe ensinou sobre o des-ser do analista.

Desejo de ejeção?

Encontramos nessa lição do Seminário 16 um termo magnífico: Lacan diz que o analista opera como “bode expiatório”, pois ele é aquele que “toma a si esse objeto a[19]. Marcus André Vieira, na Latusa nº 26, aponta, ainda, o seguinte:

O analista sustenta, na sessão […] encarna o objeto-resto na transferência e faz, dessa parte descartada do analisante, o motor de sua ação. […] o próprio analista será estranho, poderá convocar a estranheza de seu analisante. Em suma, poderá bancar o objeto se puder ser causa de desejo[20].

O analista, por sua presença e colocando em jogo seu corpo, evocará os impactos do gozo e fará surgir a modalidade de gozo do sujeito, o que o sujeito às vezes quer evitar encontrar. O analista é “suporte”, ele “desempenha o papel”, diz Lacan. Seu ato procura fazer surgir o que é evitado e que, neste Seminário 16, Lacan denomina como “sua verdade incurável”[21], ou no Seminário 15:

O fim da psicanálise libera o que se passa em uma verdade fundamental, a saber, a desigualdade entre o sujeito e qualquer subjetivação possível de sua realidade sexual. Para que essa verdade apareça, exige-se que o psicanalista já seja a representação disso que disfarça, obtura, bloqueia essa verdade, e que se chama objeto a[22].

Toda a direção da cura visa à evacuação do lugar do analista, como SsS. Se só se capta o real pelos semblantes, o que se visa é a destituição do analista desse lugar. Há analistas que sabem muito bem fazer isso, que consentem com essa destituição, com essa evicção, com esse desaparecimento, com essa “dejetização” e que sabem acompanhar esse movimento. É por isso que acredito que devemos pensar o desejo do analista na perspectiva da evacuação final de seu lugar e acompanhar o sujeito nesse movimento. Não sabemos o que é o desejo do analista, e é porque ele abre um buraco no universal que devemos nos perguntar isso a cada vez. Mas podemos nos aproximar desse desejo a partir desse estranho desejo de sua própria evicção. No capítulo 16 de …ou pior, Lacan convida o analista a “ser digno da transferência”[23] e, para isso, a suportar seu des-ser. Esvaziar, para poder encarnar os semblantes que convêm a cada analisante. Mas, acima de tudo, esvaziar esse lugar para saber se deixar e não temer sua própria evicção no fim da análise.

Miller faz uma leitura esclarecedora no final de seu seminário Donc: o analista se presta a uma operação em que ele sabe, desde o início, que ela o levará a “desnudar a consistência que lhe valia o brilho de sua posição”[24]. O analista sabe, por ter experimentado na própria pele, como a história vai terminar. Não é absolutamente a mesma coisa (com isso vou terminar) orientar a cura e, desde o início, a partir de sua própria expulsão como alvo final, do que orientá-la na crença no SsS. Não se procede dizendo: agora somos SsS e depois nos ocupamos do objeto. Saber, por ter passado por isso, que o SsS está condenado ao des-ser orienta a cura desde o início. O corte, as sessões curtas, a interpretação que visa à ruptura do significante e do significado são atos que visam à destituição final. Miller termina esse curso dizendo que “para fazer o passe, é preciso dois”: um analista que consinta com sua evacuação final e um analisante pronto para assumir as consequências de seu confronto com o horror de saber.

Devemos mergulhar no paradoxo do ato analítico: deixar as ficções se desdobrarem, mas para isolar o que não mente, o que insiste e se repete, tomar a medida dessa opacidade em nós que a ficção e o sentido não conseguem cobrir, acompanhados por um analista que carrega a cicatriz do resíduo que ele sabe ser. Por fim, uma citação comovente de Lacan no “Discurso aos católicos”, que ressoa quase como uma epígrafe: “Nesse lugar que ocupo e onde almejo que minha vida acabe de se consumar, é isto que permanecerá pulsante depois de mim, creio, como um resíduo no lugar que teria ocupado”[25].

Romildo do Rêgo Barros: A psicanálise sempre esteve sob acusação. Talvez, a melhor maneira de defender a psicanálise contra a acusação de ser uma fraude, ou uma enganação, é levar a sério o seu caráter paradoxal. O que implica, no final das contas, uma certa degradação da verdade. Essa é uma contribuição de Lacan que tem a vocação de ajudar na civilização e não só na psicanálise. Em um certo momento, Lacan separa a verdade da exatidão e a define como uma ficção.

Ontem, Fernanda Otoni nos falava das ficções da verdade, o que no ensino de Lacan quer dizer que a própria verdade é uma ficção. Hoje, Carolina Koretzky explicou esse movimento que a prática analítica impõe ao neurótico, em que a busca de uma verdade última lhe serve precisamente para “não saber nada sobre o objeto”. A irrupção do objeto inclui a degradação da verdade. Aí se situa uma objeção que pode ser expressa de uma forma lógica: ou verdade ou objeto, isto é, ou semblante ou real, no sentido em que Carolina tratou.

Uma outra passagem da apresentação de Carolina diz o seguinte: “Gostaria, então, de destacar o paradoxo que está no cerne da transferência analítica”. Mas como é que no “cerne” pode estar o paradoxo? Costumamos esperar que o cerne seja uno e o paradoxo seja múltiplo. Ela continua: “pois me parece que o manejo da transferência e os atos do analista ao longo de uma cura devem ser pensados a partir de um lugar paradoxal: entre o lugar dado pelo analisante como Sujeito Suposto Saber e o lugar do analista como objeto”.

Nessa relação paradoxal, a suposição de saber – que é uma certa servidão ao significado, ao semblante e à verdade – e o objeto são dados como opostos. Em certa altura da fala de Carolina, ela aponta um paradoxo no começo ou no fim da experiência analítica, mas que pode ser pensado como uma relação permanente desde o começo. É tão permanente que, em princípio, o sujeito procurou o analista porque teve uma experiência com o Real. Essa experiência com o Real pode ser pensada como uma ameaça; no imaginário, podemos chamar de crise ou ruptura no imaginário, a qual revela a própria irrupção de um Real insuportável. Esse me parece ser o ponto mais rico dessa relação, e Carolina trata isso com muita clareza. Entre a suposição de saber, que é enganosa, e o objeto, que é Real, existe uma permanência. Não é só um traçado de uma análise, do começo ao fim, mas é cada experiência por exemplo, de um ato psicanalítico, como Lacan trata no Seminário 15.

Esta frase de Carolina que destaquei gira em torno do significante ou da ideia do paradoxo. A função do analista deve ser vista como um paradoxo. A começar pela mudança de lugar. O analista, que é chamado a dar corpo ao Sujeito Suposto Saber, completa sua tarefa como objeto. São dois lugares, mas também são dois tempos. Com frequência falamos da passagem do Sujeito Suposto Saber ao objeto como se fossem momentos. O primeiro permite que a análise se inicie e o outro marca sua resolução ou seu final. A posição entre o lugar de Sujeito Suposto Saber e o de objeto, sinalizada com a preposição entre, é simultaneamente lugar e tempo. É uma proposição quase contraditória. Como pode o tempo ser simultâneo ao lugar? Mas é este o nosso desafio. Isto parece caracterizar a transferência não somente como dois aspectos, mas como um paradoxo necessário. Só funciona paradoxalmente. Trata-se de um paradoxo que fundou a psicanálise, desde o momento em que Freud criou o inconsciente como hipótese. A prática analítica, que tem como alicerce a transferência, se funda no inconsciente como hipótese. Como uma hipótese permanente.

Carolina resumiu de forma bem completa o paradoxo próprio da análise: “O neurótico começa a análise pensando que quer saber. O analista se deixa enganar por essa crença inicial. Mas, no final, o neurótico percebe que não queria saber de nada”. É preciso sublinhar que o que está implicado é o desejo dele. Seguindo com a fala de Carolina: “e se defendeu da verdade de seu gozo por meio do Sujeito Suposto Saber. Se é claro que o sujeito se defendeu, também é verdade que foi graças a essa crença inicial que ele conseguiu se aproximar de um certo Real, eis o paradoxo do ato analítico”.

É um paradoxo em movimento, no sentido de que é um fator que permite a uma análise funcionar. Poderíamos seguir com Carolina da seguinte maneira: ela começa com o paradoxo, que no fundo consiste em montagens de semblantes ou, como disse Fernanda Otoni, de ficções da verdade. Toma a forma, se escolhemos a ironia, como fez Lacan, de uma escroqueria, onde a psicanálise, aliás, coincide com a poesia.

Lacan defendeu a psicanálise, várias vezes, da ideia de que ela seria uma escroqueria, sem negar que há alguma enganação, a qual nos fala Carolina. Uma escroqueria, onde no seminário L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre, a psicanálise encontra a poesia. Ambas têm uma relação semelhante com o S2. O que quer dizer que, se o S2 contém o sentido do que é dito, é ele quem revela o valor do S1, pois o S1 separado do S2 não tem sentido. Lacan, nesse seminário, explica isso com muita clareza:

Talvez a psicanálise seja uma escroqueria, mas não uma escroqueria qualquer. É uma escroqueria que está bem de acordo com o que é o significante. E o significante, é preciso notar que é algo bem especial. Ele tem o que se chama “efeitos de sentido”. Bastaria que eu conote o S2, não por ser o segundo no tempo, mas por ter um “sentido duplo”, para que o S1 tome o seu lugar, e corretamente[26].

Mais adiante, ele diz: “a psicanálise não é, eu diria, mais uma escroqueria do que a própria poesia”. E a poesia se funda, precisamente, nessa ambiguidade de duplo sentido. Não o sentido, o S2 no segundo lugar, mas tendo ou revelando um duplo sentido.

A psicanálise, a poesia e, mais adiante na mesma aula, Lacan inclui a filosofia, como tendo a escroqueria no horizonte. Horizonte que, no nosso campo, foi aberto pelo proton pseudos[27] freudianos. Ao procurar referência sobre isso em espanhol, foi possível encontrar que em castelhano se diz “estafa”, cujo significado é muito distante do sentido em português. Lacan, numa discussão, nos remete à expressão proton pseudos, que se fala pouco, mas que é um fundamento essencial em Freud quando ele define a histeria. No Seminário 24, Lacan chega a dizer que escroqueria e proton pseudos são a mesma coisa[28]. Esta é uma maneira muito sólida, muito concentrada de dizer essa questão. Lacan afirma, assim, que chamou de escroqueria porque Freud não podia dizer aos seus alunos que eles estavam sendo formados por uma escroqueria. Então ele, Lacan, diz em francês o que Freud pôde dizer em grego.

Em um percurso meio vizinho ao que apresentou Carolina, acrescentamos que a filosofia também participaria disso que Lacan chamou de escroqueria. De qualquer forma, independente de uma ideia de boa vontade ou não sobre a escroqueria na psicanálise, ele visa a dizer que todos os sentidos fabricados em psicanálise, nesse percurso que vai da suposição inicial de saber à queda, ao desértico, ao des-ser do psicanalista etc., têm a ver com essa questão da escroqueria. E que todo esse percurso se caracteriza por uma certa, não seria bem dizer uma falsificação, Carolina denunciou, mas pelo que seria uma semblantização. Ou seja, a presença permanente do semblante na tentativa de o sujeito dizer a verdade. Não se pode dizer a verdade sem o apelo ao semblante. Esse é o segredo da psicanálise.

Gostaria de pedir a Carolina para pôr em discussão essa questão, que para mim pareceu essencial, que decorre do fato de a suposição do saber, do semblante, da verdade, da mentira etc. estar em permanente relação com o objeto. Ou seja, existe Real onde existe semblante. Não há semblante sem o risco ou o uso do Real. Essa seria a parte da sua fala que, primeiro, me encantou e segundo me pareceu que merecia uma discussão.

Carolina Koretzky: Não se trata de em um primeiro momento ocuparmos o lugar do Sujeito Suposto Saber, e nos ocuparmos das formações do inconsciente e da produção de sentido, para depois ocuparmos o lugar do objeto. A orientação não é essa. É verdade que no final acontece uma queda do objeto, mas tomado a partir da revelação desse objeto que causa horror, o qual o Sujeito Suposto Saber vem encobrir. De toda forma, essa questão da permanência é fundamental. Desde a primeira sessão, essa questão está presente. É fundamental que o analista saiba como e do que se trata nessa suposição de saber inicial. Por isso, a escolha dessas citações para a apresentação de hoje, particularmente essa passagem do Seminário 15 sobre o fintar. O analista finge alguma coisa. Ao mesmo tempo, ele tem que fingir ter esquecido que se trata de um fingimento para deixar a suposição de saber se instalar; ele tem que esquecer e não esquecer totalmente. Quando eu penso que é uma questão permanente é porque ela se coloca em cada ato do analista. Os atos analíticos, os cortes, a ruptura de sentido, os equívocos, visam a esse lugar de destituição final. Isso está desde o início do trabalho analítico até o final.

Esta questão atravessa a formação do analista. Na minha experiência, ela se revelou de maneira muito clara no final da análise, isto é, de saber de que se trata por trás da suposição de saber. Eu senti isso no meu corpo, quando consegui formular o axioma do fantasma como uma obstinação de fazer o outro falar para devorar as palavras. Quando consegui produzir esse axioma, porque o fantasma é uma construção da análise com o objeto… quando isso apareceu, quase no final da análise, foi um momento muito claro, quase revelador, que foi acompanhado por um momento de insônia muito forte, porque pude ler como a questão da devoração de palavras estava presente desde o início da análise, mas como algo que não podia ser lido. Então, para voltar à questão da permanência e do permanente, o neurótico procura o analista por esse traço de gozo. Esse é um momento muito importante no paradoxo da transferência, porque o analisante não pode saber disso no início, mas toda a análise se faz graças a esse traço de gozo. Toda a procura da verdade tentou afastar, velar, esse traço de gozo no cerne da transferência, ao mesmo tempo, é graças a esse traço colocado no analista e ao modo como ele deixa esse traço se depositar, que a análise pode acontecer. Como fazer para que o analista permita ao sujeito, na sua posição, fazer emergir esse objeto de gozo que ele mesmo encarna? É por isso que sabemos que, para deixar as produções do inconsciente à procura de sentido, temos que ter essa ideia do uso do semblante. É pelo semblante que se apanha a verdade do gozo no cerne do sintoma, da repetição.

É importante dizer que o objeto se constrói como uma produção da análise. É difícil falar do objeto fora de uma análise. O objeto se constrói graças a sua análise e na análise, quando ela permite apanhar a lógica da repetição, da procura de um gozo a partir do Outro. A transferência produz isto quando busca que o gozo se localize e se desespecifique. Ou seja, para que o gozo se condense cada vez mais de modo a revelar o valor de gozo do analista e do dispositivo analítico. Se o final permite sempre revelar o valor de gozo do analista, está claro que ele ficou velado desde o início.

Romildo do Rêgo Barros: Um comentário, bem secundário, quanto à tradução do “feinte”. Bem mais que fingimento, em português, ela se refere mais ao drible do futebol, quando o craque fez uma finta, ele driblou. Eu acho que fingimento está mais perto de fake.

Ana Beatriz Freire: Carolina, você poderia explorar um pouco mais a questão do cinismo e o fim da análise? Como fica a questão das fake news e a verdade como ficção? Eu queria retomar essa questão das “escroquerias” que o Romildo chamou a atenção.

Carolina Koretzky: Um sujeito pode terminar a análise denunciando o semblante, como se só existisse gozo. Acho muito importante Lacan falar desse risco, mas ele nunca faz uma exaltação ao final cínico. Parece se tratar do contrário, porque, novamente, é pelo semblante que nos aproximamos da beira daquilo que pode ser dito. Nesse sentido, seria interessante conversar ainda mais sobre o passe. Talvez o dispositivo do passe seja um dispositivo ‘anticínico’, diante do risco do final cínico, por ser uma logificação na transmissão a partir de uma comunidade de trabalho. A produção de um trabalho que se constrói a partir da lógica dos semblantes, que visa a transmitir um real, aquilo que é impossível transmitir, pode ser um modo de não cair no cinismo.

Fernanda Otoni: Quando você resgata em Lacan que a entrada em análise é um quase passe faz parecer que a transferência é como um dispositivo passador, no sentido de que se passa alguma coisa. Lacan, ao escrever o matema da transferência em 1967, estava escrevendo também sobre o passe[29]. Parece ser essa a articulação que você estabelece a partir do que você vem trabalhando com o tema da permanência. Então, tem algo que já está desde o início e que permanece, só que esse algo que permanece é de uma matéria fugaz, uma matéria volátil que não se deixa apreender. Está lá desde o início, quando esse buraco se abre, e isso vai se condensar na construção do Sujeito Suposto Saber durante o percurso da análise, como você trouxe; vai se condensando num objeto que se supõe condensar essa matéria, que, ao final, encontra-se outra vez, mas não sem esse percurso, com a destituição. Isso, então, que se produz só não é cínico, não é só isso, como você foi trabalhando, porque isso vai se conectar e se arranjar na forma de um trabalho, o trabalho do testemunho. Isso vai encontrar modos de se dizer. Então, o que ficou para mim como questão é um ponto que estamos trabalhando e, talvez a partir desse percurso que você fez, possa nos ajudar a avançar um pouco mais. O Outro não existe a partir do momento que se condensa nele o objeto da fantasia. Então que Outro que resta? Essa é a minha pergunta: que Outro é esse que resta de uma certa alteridade, uma alteridade não mais envelopada com o objeto de cada um? Não seria, esse, o Outro que interessa? Lacan vai dizer que mesmo que o amor seja impossível e que a relação não exista, isso não diminui em nada o interesse que devemos ter pelo Outro. Não seria esse o Outro que nos interessa em sua alteridade e não mais como resíduo de uma projeção fantasmática?

Clarisse Boechat: O cerne desse paradoxo e suas apresentações numa análise pode ser pensado com o Outro ou sem o Outro. Pode ser pensado na vertente da verdade ou do objeto, mas também como litoral, borda que separa o furo e os efeitos do sentido. No Seminário 25, Lacan fala que o Sujeito Suposto Saber não é suposto erroneamente, se o analista sabe que o inconsciente consiste nessa articulação de lalíngua com o real do gozo. O furo que comparece nesse litoral é, posteriormente, recoberto pelos efeitos de sentido. O que se escreve a cada vez que esse furo, essa “espécie de um lapso”, aparece em sua materialidade de gozo? Aparece também uma certa mobilidade, uma fluidificação de um S1 que talvez possa se encadear, de outras formas com o S2. Vocês poderiam dizer um pouco dessa perspectiva da borda, do sentido e do furo no saber produzido gozo? E ainda: como é que o S1 se engancha com S2 nesse paradoxo?

Jefferson Nascimento: Tem alguns pontos que você vai trazendo na sua fala, mas, em especial, vou destacar um, com um breve comentário e uma pergunta. Você fala sobre os finais de análise. Temos até dentro da comunidade, mas, especialmente fora, essa ideia de que uma análise nunca se conclui. O Romildo vai dando notícias disso, da ideia de um final de análise, uma conclusão. Enfim, acho importante porque você fala da ideia de que o analista precisa ter isso no horizonte, sair da posição de Sujeito Suposto Saber e, enfim, ocupar a posição de objeto. Mas como não confundir esse termo horizonte com uma certa pressa que pode, de alguma maneira, atrapalhar a condução de uma análise? Pensando um pouco nesse momento que a Escola tem vivido aqui no Brasil com a chegada de tantas pessoas “jovens” e no começo da clínica, numa discussão do chão da clínica, da base da clínica psicanalítica.

Ricardo de Sá: Essa questão do semblante nos captura e, ao interrogá-la, precisamos interrogar também como fazemos semblante. A questão sobre o desfecho de uma análise poder ser o de cair na ideia de que só há gozo numa posição cínica, como se você pudesse se desembaraçar do semblante e ficar ali com o que não engana é importante. Com o que na realidade seria o Real, o qual o semblante envelopa. Me parece importante a forma como Lacan situa no Seminário 17 o lugar do agente nos discursos. Como, por exemplo, ele desloca sua ênfase e, no Seminário 18, vai começar a falar que este é o lugar do semblante. Originalmente, o lugar, seja ele lido como do agente ou do semblante, é ocupado por S1. Por um comando, por algum significante que opera a partir do um. Ele diz que cada lugar guarda a memória do significante que originalmente, ali no Inconsciente, ocupou esse lugar. No Seminário 18 ele fala de um discurso que não faça semblante e isso é bem importante. Essa referência marca um pouco a dificuldade desse conceito. Porque uma coisa é quando um objeto está no lugar que, originalmente, foi ocupado pelo S1. Porque, justamente o S1, no discurso do analista, está no lugar da produção. Ele está dissociado desse lugar do comando e do lugar do semblante. Me parece que esse deslocamento coloca a possibilidade de pensar essa questão do semblante sem ser dessa forma desencarnada e cínica. Uma possibilidade de fazer um outro imaginário e constituir um outro semblante, mas já desse lugar de não fazer semblante. Falar de um novo imaginário e de alguma coisa que construímos dessa evicção. Gostaria de te ouvir um pouco sobre essa questão. Sabemos como é devastador quando um objeto assume o lugar de comando. Como não é compatível com a realidade ordinária, o objeto ocupando esse lugar no mundo, mas também como não é possível viver sem uma face para ele.

Carolina Koretzky: Vou começar pela interrogação da Fernanda, “o que é esse Outro?”. Qual é esse Outro do final, quando ele deixa de condensar, nele, o objeto da fantasia? Qual é o estatuto que fica, o que resta? Fernanda, você falou de uma certa alteridade, que é uma questão muito difícil. O que é que fica depois de ter produzido essa extração do lugar do objeto, que não nos permitia o acesso à alteridade, porque estamos sempre encontrando o próprio objeto.

Eu penso que a análise permite ganhar uma margem de interpretação. Interpretação não só no sentido de poder ter uma nova margem para interpretar para além da fantasia, mas de poder acolher o Real de um jeito diferente daquilo que a máquina interpretativa da fantasia produzia a cada vez. É uma nova margem de interpretação para acolher o real. Isso também é ter acesso a certa alteridade, e talvez uma alteridade no sentido de poder deixar-se interpretar também. Que o Outro possa, também, nos interpretar. Eu acho que o final de análise me permitiu ouvir o Outro. É estranho dizer isso. Me permitiu ganhar uma margem para ouvir novamente o Outro e me deixar interpretar pelo Outro na sua alteridade e, finalmente, não estar sempre encontrando o mesmo objeto e a mesma interpretação.

Fernanda lembrou do que foi dito da entrada como um “quase passe”. Foi surpreendente encontrar esse “quase passe” no início. Me pareceu bem interessante colocar isso como uma questão da destituição subjetiva e desse encontro com a inexistência do Outro no início da análise. Se há uma destituição no bilhete de ingresso, na entrada da análise, qual seria a diferença com a destituição final? Podemos dizer que no início, diante desse quase passe, diante dessa destituição subjetiva, o sujeito acredita que há um remédio para isso. Talvez, a destituição subjetiva final seja um encontro com a inexistência do Outro sem remédio e sem curativo. É um confronto com um Real que o sujeito não pode mais vir cobrir com as ficções do Ser.

Em relação à pergunta do Jefferson sobre essa pressa do final que pode atrapalhar o verdadeiro final de análise, eu penso que sua pergunta mereceria um trabalho. Lembrei de uma frase de Lacan, parece estar nos Outros escritos[30], quando ele diz: “precisa tempo para fazer-se ao ser”. Ele diz, em francês: “Il faut du temps pour se faire à l’être”, “faut du temps”. Há um jogo de palavras em francês entre o necessário/preciso e a falha. É necessário um certo tempo para se deparar com todas as ficções do ser. Também, o final advém por essa falha do tempo. Quando o sujeito já sabe que não tem mais tempo para continuar a se contar histórias. Falha o tempo, é necessário o tempo.

 

Transcrição: Ana Maria Ferreira
Preparação do texto: Larissa Martha, Ricardo Sá, Paula Legey.

[1] LACAN, J. O seminário, livro 16: De um Outro ao outro. (1968-1969) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p. 329-342.
[2] MILLER, J.-A. Clínica sob transferência. In: MOTTA, M. B. (Org.). Clínica lacaniana: casos clínicos do Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1989. p. 26.
[3] LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. (1967) In: LACAN, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 248-264.
[4] MILLER, 1989, op. cit., p. 24.
[5] MILLER, J.-A. Aula de 13 de junho de 1990. In: MILLER, J.-A. El banquete de los analistas. Buenos Aires: Paidós, 2000. .
[6] MILLER, J.-A. Liminar. In: MILLER, J.-A. Como terminam as análises: paradoxos do passe. Rio de Janeiro, Zahar, 2023. p. 14.
[7] Ibid., p. 14.
[8] LACAN, 1968-1969/2008, op. cit., p. 333.
[9] LACAN, J. O seminário, livro 8: A transferência. (1960-1961) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. p. 319. Grifo nosso.
[10] MILLER, J.-A. Em vista da saída. In: MILLER, 2023, op. cit., p. 98.
[11] Ibid.
[12] LACAN, 1968-1969/2008, op. cit., p. 336.
[13] MILLER, J.-A. Em vista da saída. In: MILLER, 2023, op. cit., p. 75.
[14] LACAN, 1968-1969/2008, op. cit., p. 338.
[15] Miller, J.-A. Introduction à la lecture du Séminaire L’Angoisse de Jacques Lacan. La Cause freudienne, Paris, n. 58, p. 103, 2004.
[16] Ibid., p. 103.
[17] LACAN, J. O seminário, livro 15: O ato psicanalítico. (1967-1968) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Teresinha N. Meirelles do Prado. Rio de Janeiro: Zahar, 2025. p. 96.
[18] Ibid., p. 59.
[19] LACAN, 1968-1969/2008, op. cit., p. 339.
[20] VIEIRA, M. A. O que se cristaliza em uma identidade. Latusa, Rio de Janeiro, n. 26: Binarismo em crise, p. 71, 2022.
[21] LACAN, 1968-1969/2008, op. cit., p. 339-341.
[22] LACAN, 1967-1968/2025, op. cit., p. 130.
[23] LACAN, J. O seminário, livro 19: …ou pior. (1971-1972) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p. 226.
[24] MILLER, J.-A. Donc. Seminário de orientação lacaniana, 1993-1994. Paris: Département de Psychanalyse, Université Paris VIII / École de la Cause Freudienne.
[25] LACAN, J. Discurso aos católicos. In: LACAN, J. O triunfo da religião. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. p. 15.
[26] LACAN, J. O seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. (1976-1977) Inédito. Aula de 15 de março de 1977.
[27] FREUD, S. Projeto para uma psicologia científica. (1895) In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. I. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 406.
[28] LACAN, 1976-1977. Inédito. Aula de 26 de fevereiro de 1977.
[29] LACAN, 1967/2003, op. cit., p. 253.
[30] LACAN, J. Radiofonia. (1970) In: LACAN, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 425.