Elisa Alvarenga: Agradeço o convite de Glória Maron em nome da Comissão Científica e da Comissão Organizadora da 32ªs Jornadas Clínicas da EBP-Rio, sobre “A transferência na prática”, para participar deste encontro preparatório e comentar estes dois textos de nosso querido e saudoso Carlos Augusto Nicéas sobre a contratransferência, a partir do título, extraído do seu texto, “A função é o lugar de onde o analista responde”. Ler e conversar sobre estes dois textos não deixa de ser uma homenagem a Nicéas, cuja clareza é uma orientação para nós neste campo escorregadio da contratransferência, como podemos ver na história do movimento psicanalítico.

A função do analista

Este título me remeteu a uma referência na “Nota italiana”, de 1974, onde Lacan diz:

Não-todo ser falante pode autorizar-se a produzir um analista. Prova disso é que a análise é necessária para tanto, mas não é suficiente.

Somente o analista, ou seja, não qualquer um, autoriza-se apenas de si mesmo.

Isso existe, agora é fato: mas é porque eles funcionam. Essa função torna apenas provável a ex-sistência do analista. Probabilidade suficiente para garantir que ele exista: o fato de as chances serem grandes para cada um deixa-as insuficientes para todos.

Se conviesse, porém, que apenas os analistas funcionassem, tomar isso por objetivo seria digno da trípode italiana[1].

Lacan continua, em sua “Nota italiana”, dizendo que é preciso levar em conta o real. Portanto, se a função é o lugar de onde o analista responde, e Lacan considera que seria conveniente que apenas os analistas funcionassem, convidando os colegas italianos a verificá-lo, devemos procurar, no que concerne à transferência e à contratransferência, a função do analista que resguarda um lugar para o real – e eu me arriscaria a dizer, para o real do inconsciente como furo no saber.

Os dois textos de Nicéas, “Uma questão de sujeito (nota sobre a contratransferência)” e “R: contratransferência, psicanálise e psicoterapia”, mapeiam um percurso de Freud a Miller, apontando para a leitura de Lacan, que nos permite ultrapassar os desvios dos pós-freudianos de modo a nos posicionarmos de uma boa maneira na direção do tratamento na clínica contemporânea, servindo-nos do antídoto lacaniano ao conceito de contratransferência, que é o desejo do analista.

Freud e sua contratransferência

Comecemos por Freud e sua carta a Binswanger, reportada por Nicéas, que deixa clara sua posição:

Ela [a contratransferência] está entre os problemas técnicos mais complexos da psicanálise. Teoricamente, eu considero que ele é mais facilmente solucionado. O que se dá ao paciente não deve jamais ser afeto imediato mas sempre afeto conscientemente dado, e isso mais ou menos segundo as necessidades do momento. Em certas circunstâncias, pode-se dar muito mas jamais indo buscar em seu próprio inconsciente. Para mim, aí está a fórmula. É preciso então, a cada vez, reconhecer a sua própria contratransferência e ultrapassá-la[2].

É interessante, então, notar que Freud não nega a existência da contratransferência, mas considera necessário reconhecê-la e ultrapassá-la a cada vez. Podemos verificar isso no texto de Lacan “Intervenção sobre a transferência”, quando indica que o fracasso de Freud com Dora se deve à insistência de Freud em apontar, como objeto do seu desejo, o sr. K, e não a importância da sra. K como mistério da feminilidade para Dora, que Freud só pôde reconhecer a posteriori. Assim, Lacan define aqui a contratransferência como “a soma dos preconceitos, das paixões, dos embaraços e até mesmo da informação insuficiente do analista num dado momento do processo dialético”[3]. Freud, então sustentado por sua crença no Édipo, deixou-se enganar por seu saber, em vez de colher aquele da boca de sua paciente.

Por outro lado, Lacan comenta, na lição IX do Seminário 10, A angústia, o largar de mão [laisser tomber] de Freud em relação à Jovem Homossexual[4], encaminhando-a a uma analista mulher ao pensar que ela o enganava com seus sonhos de casamento. Não poderíamos colocar esse largar de mão freudiano como uma manifestação da contratransferência de Freud em relação à Jovem Homossexual, mais uma vez uma consequência dos preconceitos e embaraços de Freud em relação à sua paciente?

Os pós-freudianos

Nicéas nos apresenta também um texto de Miller, “Contratransferência e intersubjetividade”, parte do seu Curso de Orientação Lacaniana de 2002[5], que nos permite percorrer os avatares do conceito de contratransferência nos pós-freudianos, desde o texto de Paula Heimann de 1949, apresentado no XVI Congresso Internacional de Psicanálise de Zurich. Ela sustenta a tese de que a resposta emocional do analista a seu paciente, no interior da relação analítica, constitui um instrumento de pesquisa do inconsciente do paciente. Para ela, a situação analítica é sobretudo uma relação entre duas pessoas, o que conduzirá os analistas a questionar e até negar a necessidade da hipótese do inconsciente[6].

Margaret Little engajou-se imediatamente no caminho aberto por Paula Heimann, indo muito além dela. Seu texto de 1951, “A contratransferência e a resposta que lhe traz o paciente”, é comentado por Lacan no Seminário 1 e retomado no Seminário 10 junto com seu texto “R – a resposta total do analista às necessidades do seu paciente”. Nicéas mostra que Lacan, desde 1953, em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, aponta para a aversão dos analistas à função da palavra e sua tentação de abandonar seus fundamentos, buscando novos meios de ação para intervir. Margaret Little privilegiou o conceito de contratransferência, abrindo a porta para intervenções de ego a ego que colocam em cena a subjetividade do analista. Ela visa à abertura do tratamento analítico a outros tipos de pacientes e borra a diferença entre consciente e inconsciente, além da diferença entre interpretação e comportamento do analista[7].

Miller dá um especial valor ao artigo de Annie Reich de 1960, “Algumas observações suplementares sobre a contratransferência”, que adverte da confusão entre psicanálise e psicoterapia. Ela está disposta a admitir uma empatia com o paciente, mas não uma resposta total. Ela percebe que a interação entre o analista e o analisante se apoia em identificações e projeções e modifica as condições da rememoração, interpretação e ato analítico[8].

Miller chega, então, a Otto Kernberg e seu artigo de 1965, “Contratransferência”, que valida Margaret Little e propõe servir-se dos sentimentos do analista. Com seu tom conciliador, a dinâmica relacional se impõe. A partir dos anos 80, essa dinâmica é levada a suas últimas consequências e a interação predomina sobre o inconsciente[9]. Miller considera que a escola intersubjetivista, criticando a psicanálise considerada ortodoxa e científica como dogmática e autoritária, desdobra elementos presentes desde 1949 no artigo de Paula Heimann. Colocando a ênfase na relação, conduz a negar o realismo do inconsciente. Os teóricos da relação de objeto são precursores dos personalistas e interpersonalistas, levando à reedição californiana do desafio lacaniano à ortodoxia hartmanniana. Quando a única realidade em jogo no tratamento é a realidade intersubjetiva criada pela interação analista/analisante, a psicoterapia não está invadindo a psicanálise? – ele pergunta[10].

Lacan, o inconsciente e o desejo do analista

Se Lacan, em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, descreve a experiência analítica como uma relação, ele aloja o inconsciente em uma dimensão transindividual muito mais complexa do que uma relação a dois, porque inclui a fala, a linguagem e o discurso. Lacan devolve à experiência analítica seu fundamento na fala, no campo da linguagem e sua estrutura, na qual há impossível e, portanto, real. Se há intersubjetividade, ela é dissimétrica. O Outro preserva sempre uma função de alteridade. O sujeito suposto saber significa que ninguém sabe nada até que surjam os significantes e, na clínica contemporânea, podemos ter um sujeito não representado por um S1 junto a um S2, o que nos remete ao inconsciente real: no espaço de um lapso, o significante pode não ter nenhum impacto de sentido.

Lacan levanta a questão em seu último ensino: se a psicanálise seria um autismo a dois. O que permite forçar esse autismo é que lalíngua é um assunto comum. Se Lacan definiu a transferência como sujeito suposto saber, no Seminário 24 ele diz que, na análise, quem sabe é o analisante. Se há um Outro, ele segue o que o analisante tem a dizer[11]. No Seminário 25, Lacan avança que o desejo do analista é o sujeito suposto saber como operar, isto é: “que ele se dê conta da importância das palavras para seu analisante”[12].

Vemos então que, de cabo a rabo em seu ensino, Lacan aponta para a importância do significante, da linguagem, na experiência analítica. Por mais que a presença do analista seja fundamental para a construção do caso e a direção do tratamento, ela se dá a partir dos significantes do paciente e não da introdução dos significantes presentes no inconsciente do analista. Esse é um elemento decisivo na operação da função do analista como parceiro.

Para concluir, retorno então à “Nota italiana”, onde Lacan diz que é preciso levar em conta o real. O analista aloja um saber que deve levar em conta o saber no real. Se a humanidade não deseja esse saber, só existe analista se esse desejo lhe advier, e que por isso ele seja rebotalho dessa humanidade. Essa é a condição da qual o analista deve trazer a marca, e cabe a seus congêneres encontrá-la. Trata-se de verificar no analista enquanto rebotalho da douta ignorância um desejo inédito e isso tem a ver com saber ser objeto e não sujeito na direção do tratamento de seus analisantes.

Glória Maron: No seu comentário, Elisa faz um percurso que aborda a posição do analista a partir de diferentes perspectivas: o analista como sujeito suposto saber; o analista resguardando o furo no saber; o analista seguindo o analisante; o analista como objeto; o analista como parceiro.

Mas me chamou a atenção quando você, Elisa, se reporta a Lacan em seu último ensino e fala da psicanálise como uma experiência de um autismo a dois. O forçamento possível no que se refere à transferência seria o que há de comum tanto para o analista quanto para o analisante, que é lalíngua. Você pode retomar esse ponto e falar mais da função do analista nesse autismo a dois?

A seguir, mais um comentário do que uma pergunta. Você transmite a importância do operador do desejo do analista como antídoto da contratransferência. O desejo do analista emerge como desejo inédito. Esse desejo está condicionado pela experiência do analista enquanto rebotalho da humanidade, que experimentou o des-ser, passou pelas desidentificações, atravessou a fantasia, experimentou a impossibilidade de o objeto vir a complementar fantasmaticamente sua falta-a-ser e desaguou nos confins da não relação sexual. Chama a atenção na sua fala e na “Nota italiana”[13] que a marca do desejo do analista é transmissível e, na minha escuta, convoca o analista a tentar a cada vez transmiti-la na construção de um caso como também ser reconhecida e localizada por seus pares.

Finalmente, a última pergunta: há um resto, produto de uma análise, que dá lugar a um desejo inédito, o desejo do analista. Um resto que opera a favor da análise, tornando-se condição da operação analítica. Mas lidamos também com restos inelimináveis que perturbam, incidem na cena analítica. Podemos supor o desejo do analista contaminado pelos restos inelimináveis? Logo, assim como Miller adverte que o analista nunca está em dia com os efeitos do inconsciente[14], podemos supor também que nunca se está em dia com o desejo do analista? Não é nesse ponto onde o desejo pode vacilar, ratear, onde o analista se arrisca a desviar de sua função, que a supervisão tem seu lugar?

Elisa Alvarenga: Muito obrigada, Glória, por sua leitura generosa e por trazer algumas questões que permitem a gente desdobrar, talvez, um pouco, isso que Nicéas nos permitiu ler nos textos dele. Vou falar deste último ponto que você trouxe dos restos inelimináveis que podem contaminar o desejo do analista, porque Lacan disse no Seminário 11 que o desejo do analista não é um desejo puro. Temos sempre que levar isso em consideração, pois o analista é um ser humano, para usar o seu termo. Então, ele tem restos inelimináveis das suas paixões, das suas marcas com as quais ele entrou na linguagem e que se atualizam no seu sintoma. É preciso levar em conta, além do desejo do analista, o analista como sintoma, que traz consigo os seus restos, e me parece que, quando você evoca a função da supervisão, evoca um dos artifícios que a gente tem para tratar justamente esses restos do analista que podem fazer objeção à sua operação na experiência analítica.

Escrevi um texto, a partir de um cartel em que trabalhei a questão do racismo e da segregação, onde coloco de alguma forma o desejo do analista como uma espécie de antídoto ao racismo definido como uma intolerância ao modo de gozo do outro. O analista tem que, de alguma forma, poder lidar com essa diferença no modo de gozo de cada um de seus analisantes, para que este analista não entre com seus significantes, as suas paixões, na medida em que o seu modo de gozo é diferente do modo de gozo do analisante. Então, me parece muito importante tratar essas marcas, o sintoma como um modo de gozo, para poder estar presente como parceiro na função analítica, na operação analítica.

Quando você pergunta sobre lalíngua como terreno comum que permite forçar o autismo a dois, experiência entre o analista e o analisante, entendo essa presença de lalíngua como a presença da equivocidade, como a possibilidade da leitura dos significantes do analisante ser sempre uma possibilidade de ler de outra maneira, a partir do equívoco. Este Seminário onde Lacan fala do forçamento do autismo, o Seminário 24, é o mesmo onde ele introduz a importância do Um-Equívoco[15] como operador da interpretação analítica. Essa possibilidade de ler de outra maneira é fundamental para a experiência analítica e até mesmo para o final da experiência analítica, senão poderíamos esperar que essa experiência terminasse em um significante final, eternamente em busca de um significante que falta.

Lacan vai mostrar justamente no Seminário 24 que o equívoco, esse resto de cada um, não é uma palavra final, algo que vai se buscar. O que acontece é que vai se buscar a possibilidade de inventar uma nova maneira de ler. Quando ele fala do significante novo, não é tanto achar um significante novo que seria “O” significante, mas uma nova possibilidade de leitura que se dá a partir dos significantes do analisante. Não é uma leitura que vem dos significantes do inconsciente do analista, mas que vem das marcas significantes do analisante. É dessa forma que eu entendo essa lalíngua que Lacan introduz como possibilidade de forçar o autismo a dois no coração da experiência analítica.

Acho muito importante esta expressão que Lacan traz na “Nota italiana” como “rebotalho (rebut) da dita humanidade”[16] justamente para mostrar também a posição do analista diante da douta ignorância. O analista, por mais que ele saiba, tem que reconhecer a sua ignorância e é isso que faz com que surja o desejo de saber como um desejo inédito. É isto que nos leva à supervisão, é isto que nos leva a estudar, isto que nos leva a escrever, justamente na busca de saber algo mais a partir dessa ignorância. Parece ser uma marca importante do analista, isso que Lacan chama de douta ignorância, e que vai de par com esse desejo que ele chama de inédito, o desejo do analista.

Paula Borsoi: Gostaria de fazer um comentário a partir do que Lacan diz sobre o suposto saber operar, que está ligado a essa ênfase que o analista dará ao alcance das palavras do analisante. Isso parece simples, mas a gente às vezes esquece. Este suposto saber operar está ligado à ideia da ênfase no alcance das palavras.

Lembrei-me de um comentário que Romildo fez de um caso apresentado em um Seminário Clínico, que era no sentido de uma passagem que a analisante precisava fazer da idealização que ela tinha da análise e da relação com o pai para fazer um sintoma na análise, incluí-lo no sintoma. Achei isso um outro aspecto importante. O desejo do analista não está ali à disposição, não está na prateleira, não é uma coisa que se pega. É alguma coisa que a cada operação, a cada paciente, a cada situação, é preciso que esse caminho seja refeito, o modo como o analisante inclui o analista no sintoma.

Isabel do Rêgo Barros Duarte: O que me chamou a atenção foi como nos exemplos diversos dos pós-freudianos está ausente o tema da análise do analista. Aquela frase do Freud que você retomou sobre a contratransferência, de que é preciso localizá-la e ultrapassá-la, remete diretamente ao trabalho de análise, pois é a única forma de poder localizar e ultrapassar, ou atravessar. É preciso poder atravessar isso que entra em jogo na contratransferência. Quando falamos de restos inelimináveis, a própria expressão já tem embutida a análise, porque esses restos inelimináveis só se tornam restos a partir de um trabalho de análise, se não eles ocupam todo o espaço.

Outro tema, nessa mesma direção, é o que se tornou a ideia da neutralidade do analista. A ideia de neutralidade que leva ao analista não poder mudar de paletó, ter que ficar com a mesma roupa para não mexer no setting, leva ao próprio fim da ideia do inconsciente. É totalmente diferente da ideia de abstinência, a ideia de que são dois modos de gozo diferentes e que a abstinência implica em que o analista se abstenha de impor o seu modo de gozo sobre o modo de gozo do analisante. Acho isto tão preciso, ético e central. Isto só é possível a partir de ter transformado o seu modo de gozo num resto ineliminável e que só se faz com a análise.

Angela Bernardes: Gostaria de fazer um contraponto. Já me interessei muito por esse assunto da clínica da contratransferência e da resposta que Lacan dá a isso. Faço uma certa reserva em relação ao que nós, lacanianos, “superamos” dos pós-freudianos. Gostei de quando a Glória falou dos impasses, de um trabalho da Margaret Little, que deve ter sido uma analista muito interessante. De que impasses ela estava tratando quando se refere à “resposta total do analista”? Acho que os comentários de Lacan ao caso que ela relata, que ele discute no Seminário 10, são muito respeitosos e mesmo no Seminário 1, em que ele cita um caso[17]em que a analista se autoriza, a partir de um sentimento de inveja, a interpretar a paciente. Lacan diz isso no início do Seminário 1, que o fato de o analista usar a contratransferência – expressão que ele ainda usava nessa época – como um ponteiro a mais para se orientar, em si não é ruim, mas o que Elisa traz e os comentários muito bons da Glória também, é retirar do campo dos afetos essa bússola, esse ponteiro a mais, e que é possível se servir disso.

Com relação à formação do analista, acho que foi Ferenczi que introduziu essa ideia do fator pessoal do analista e que Freud comenta na conferência que ele deu em Budapeste. Ele comenta isto: Ferenczi abordou isto que ele não saberia ensinar, que não tem como ensinar, pois tem a ver com o tato do analista. Essa questão da análise, por exemplo, foi o próprio Ferenczi que falou: a segunda regra fundamental da psicanálise é a análise do analista. O que quero dizer é que eles não eram completamente “tolos”. É difícil ficarmos falando dos teóricos e dos analistas que trabalharam com essa ideia como alguma coisa tão equivocada. Embora nós tenhamos nos servido do que diz Lacan: não tem um analista que não tenha sido tomado por uma vontade de abraçar o analisante ou jogá-lo pela janela! A diferença é que ele é possuído por um desejo mais forte que conceitua como desejo do analista e que não é uma coisa evidente o que seja. Acho que várias contribuições hoje foram importantes e o próprio Seminário Clínico dos Membros da EBP vai servir para elaborar isso.

Glória Maron: É importante isso. Não há uma hierarquia. Ninguém está negando as paixões. Tanto quanto os pós-freudianos, os lacanianos também admitem as paixões dos analistas, os sentimentos, os preconceitos. A Elisa estava falando do analista como um sintoma. A questão é o tratamento que foi dado a isso, quanto eles fizeram. Acho que tem um respeito de Lacan a muitos autores pós-freudianos.

Elisa Alvarenga: Queria agradecer pelas questões. Vou começar com esta da Ângela, porque ela falou do Ferenczi e ele é um personagem muito interessante. Tem até um podcast, se quiserem ouvir, no site do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, um podcast do Sérgio Laia sobre o Ferenczi e a técnica ativa[18]. Quando vocês falam que não há muita coisa sobre a análise do analista, há muita coisa sobre as reivindicações dos analistas em relação a Freud. Por exemplo, Ferenczi recriminava Freud por não ter analisado a sua transferência negativa. Helene Deutsch recriminava Freud por ter largado a análise dela para abrir um horário para o Homem dos Lobos. Vocês sabem que os analistas, como eles atendiam sessões de cinquenta minutos, eles não tinham horário para todo mundo. Então alguns alunos de Freud o recriminaram por, de alguma forma, não terem ficado satisfeitos com o encerramento da análise deles.

É muito interessante a gente ver a importância que Lacan dava aos pós-freudianos, o tempo que ele gastou retomando esses textos de relatos de análises pelos pós-freudianos. E por mais que ele tenha uma posição diferente destes, ele aproveita os mínimos detalhes da direção desses tratamentos. Por exemplo, neste caso da Margaret Little que ele comenta no Seminário 10, como disse Angela, apesar das críticas que ele faz, mostra como coisas totalmente inusitadas como as intervenções que Margaret Little fez com esta paciente, que era uma paciente bem particular – porque o sintoma dela era uma cleptomania, não é um paciente que qualquer analista encara. A Margaret Little fazia intervenções muito ousadas com esta paciente, já que nada funcionava com ela, e Lacan comenta essas intervenções e faz uma leitura superinteressante do sintoma da cleptomania. Ele aproveitava não só as intervenções, como também os pequenos detalhes, os divinos detalhes dos casos analisados pelos pós-freudianos. Vale muito a pena a gente se debruçar sobre o Seminário 10, sobre o Seminário 1, o Seminário 5 e outros onde Lacan comenta textos de relatos de análises pelos pós-freudianos.

Achei interessante a Isabel evocar a questão da neutralidade do analista, pois é quase como um contraponto à questão da contratransferência. Se na contratransferência o analista vai buscar em si mesmo o que o paciente desperta nele como sentimentos para poder interpretar, a neutralidade seria o contrário disso. É interessante esse conceito que Lacan inventa na direção da cura que é exatamente a vacilação calculada da neutralidade do analista que pode ter um valor com as pacientes histéricas, por exemplo. Quando o analista sai da neutralidade e entra com uma presença mais incisiva em algum momento da análise. Vacilação controlada! Isso que Freud também dizia: o analista pode dar os seus afetos, mas é de maneira consciente. Não é o afeto sopitando o inconsciente do analista e ele usando esse afeto de qualquer maneira. Tem um certo cálculo nessa entrada, nessa vacilação da neutralidade, como diz Lacan[19].

Ruth Cohen: Lembrei, ainda com o Seminário 10, de como Lacan traz dois casos de dois homens analisantes de Lucia Tower para tratar de exemplos de contratransferência. Em um deles, ela faz uma contratransferência a favor da mulher, digamos assim, e no outro, a favor do paciente. Gostaria de pensar o seguinte: como Lacan caminha a partir destas mulheres, Margaret Little, Lucia Tower…? Ele diz no Seminário 10 que as mulheres sabem do desejo do analista[20]. Essas mulheres analistas trouxeram a possibilidade de pensar o desejo do analista como antídoto…

Elisa Alvarenga: Agradeço essa referência a Lucia Tower. Trabalhei muito este texto dela, onde ela fala desses dois pacientes. Lacan tece muitos elogios à coragem dela. E a partir da Lucia Tower é que ele se arvora em dizer também que as mulheres podem ser as melhores e as piores analistas. Eu me lembro, sim, que ela fazia uma certa aliança com a mulher do paciente, se preocupava se iria desencadear uma psicose nela.

Ruth Cohen: Ela tem um sonho que faz com que ela mude sua posição: em vez de ela achar que tinha que cuidar da mulher do paciente, ela passa a entender que o paciente cuidava da mulher e aí parece que a suposição de saber passa a ser do paciente.

Elisa Alvarenga: Isto que você está trazendo mostra como o analista interpreta a partir do seu inconsciente, a partir de um sonho. Lacan vai sublinhar, nesses dois tratamentos da Lucia Tower, como ela realmente se expõe à agressividade desses pacientes. É um elogio, mas é um elogio dizendo “cuidado!”. Como o analista pode se oferecer como objeto à agressividade do paciente, que não é a mesma coisa que o objeto causa de desejo.

Isabel do Rêgo Barros Duarte: É importante lembrar que Lacan fez avançar um impasse da teoria psicanalítica que, se seguisse no seu extremo, como no caso da neutralidade como um paletó que não muda, levaria à queda da própria hipótese do inconsciente. É claro que o conceito de neutralidade não é “não poder mudar o paletó”, mas se se supõe uma pureza do desejo, seguiria para “não mudar o paletó”. Então essa diferença de a gente se lembrar que nós avançamos a partir dos impasses clínicos, que cada um desses analistas cria suas soluções a partir dos impasses que enfrenta. Lacan faz avançar no impasse da teoria: impasses clínicos levam às hipóteses da teoria, mas a teoria também pode ser levada ao impasse.

Marcus André Vieira: Eu estava falando com a Maricia (Ciscato)aqui e ela lembrou de um bom exemplo. Imaginem: a paciente tem uma relação de devastação com a mãe, e de muita recusa. Ela vai para uma terceira análise. É o caso da Silvia Salman[21]. Não é bem um caso, mas é um exemplo radical e talvez isto possa ser paradigmático. Nesta análise, só se vai falar agora do pai e da relação de como mais ou menos o pai a fixava como seu desenho animado, e ela apresentava um sintoma de fuga, fugidia, nunca se deixava tomar. O analista, em certo momento, a segura e fala: “Você me provoca isso!”. Seguindo tudo o que foi dito hoje, se ele fizer isso com o mínimo de gozo da parte dele, se ele estiver tomado, já era! Ou ela sai correndo desesperada, assustada, ou vira um casal. Então tem alguma coisa de ele denunciar o gozo, atuando o gozo de certa maneira na transferência e que é diferente de uma interpretação que viria. É uma interpretação atuada. Nem chamaria de ato, porque ato a gente vê depois. É uma perturbação de algo que se coloca em cena. Não é isso que é a vacilação controlada da abstinência? Neste caso, bem forte. A vacilação controlada da abstinência que produz efeitos de perturbação e verdade, não é?

Elisa Alvarenga: Agradeço ao Marcus e à Maricia essa lembrança do exemplo da Silvia Salman. Acho que este exemplo mostra de maneira clara que o analista faz isso a partir dos significantes do analisante, que era a menina, a Silvia Salman, que era o desenho animado do pai, um desenho que ficava sempre fugindo, e o analista segura ela e fala: “Você me provoca isso!”. Devolvendo para ela que aquilo vinha a partir dela. Não é realmente o inconsciente do analista que está falando, mas os significantes do analisante. A mesma coisa no exemplo, que acho maravilhoso, da Monique Kusnierek[22]. Era uma paciente que tinha um fantasma do Outro devorador. O fantasma de um outro que a deixava sempre cair, depois ela virava um mingau e o outro devorava o mingau. Quando ela está no consultório, o analista faz “grrrr”, um bicho feroz que vai devorá-la, e isso provoca nela um riso. Transforma a devoração no fantasma num semblante de devoração na transferência e que provoca um atravessamento dessa posição de objeto de devoração do Outro. São esses exemplos que mostram que a vacilação da neutralidade não é para o analista atuar a partir do seu inconsciente, mas sim a partir do inconsciente do analisante.

Maria Inês Lamy: Lembrei de um episódio trazido por Lacan no Seminário 10, sobre uma intervenção de Margaret Little[23]. Ela havia feito obras no consultório e, durante todo o dia, escutou comentários, ou mesmo reclamações, sobre as mudanças… Após uma determinada paciente criticar muito as modificações, ela diz: “Estou pouco me importando com o que você possa achar”. Lacan valoriza essa intervenção, dizendo que a analista produziu um corte, deixando cair algo entre ela e a analisante. É uma resposta que tem a ver com o lugar de semblante. A partir do desejo do analista, se pode reagir interpretando na transferência. Em A Terceira, Lacan, referindo-se àquele analista que sempre usava terno marrom, diz que ele também estava se valendo do semblante, só que talvez não soubesse disso. E acrescenta: “Eu sou um clown”[24]. Quem atende criança sabe do valor do semblante: é preciso entrar na brincadeira, não para simplesmente brincar com a criança, mas para responder do lugar da transferência. O desejo do analista é o que nos permite intervir a partir do lugar de semblante.

Elisa Alvarenga: Achei interessante a Maria Inês lembrar esse fragmento da análise da Margaret Little, que é dessa moça cleptomaníaca justamente. Estava lá, todo mundo elogiando o consultório, criticando o consultório…. e aí a menina chega e ela fala algo assim: “Tô pouco me lixando para o que você pensa!”. A analisante saiu felicíssima falando que aquilo tinha sido uma surpresa para ela, que a analista tinha sido genial. Você tem toda a razão, pois é a partir do semblante que o analista faz esse tipo de ato – acho que podemos chamar de ato – que é pegar a Silvia Salman e falar “Você me provoca isso!” ou fazer o bicho feroz com a Monique Kusniereck. É o semblante. É fazer uso do semblante.

 

Transcrição: Rafael Dias
Preparação do texto: Caroline Nöel e Paula Legey.

[1] LACAN, J. Nota italiana. (1974) In: LACAN, J. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 312. Grifo meu.
[2] FREUD, S.; BINSWANGER, L. Correspondance 1908-1938. Paris: Calmann-Lévy, 1995.
[3] LACAN, J. Intervenção sobre a transferência. (1949) In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 224.
[4] LACAN, J. O seminário, livro 10: A angústia. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. p. 129.
[5] MILLER, J.-A. Lições de 6 e 13/03/2002, publicadas em Freudiana, Paris, n. 38, p. 7-27, 2003.
[6] Ibid., p. 20.
[7] Ibid., p. 21.
[8] Ibid., p. 22.
[9] Ibid., p. 23.
[10] Ibid., p. 24.
[11] LACAN, J. L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Lição de 10/05/1977. Opção Lacaniana n. 22. São Paulo: agosto 1998, p. 12.
[12] LACAN, J. O seminário, livro 25: O momento de concluir. Lição de 15/11/1977. Inédito.
[13] LACAN, 1974/2003, op. cit., p. 311-315.
[14] MILLER, J.-A. O inconsciente a advir. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 79, p. 11-22, jul. 2018.
[15] LACAN, J. O seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. (1976-1977) Inédito.
[16] LACAN, 1974/2003, op. cit., p. 313.
[17] LACAN, J. O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução: Betty Milan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. Lição de 27 de janeiro de 1954, p. 47.
[18] “POD I CAST” – série de podcast do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/5u5f07cugik58cGP0LNe8p?si=d0f8511bde2844fc.
[19] O termo “vacilação calculada da ‘neutralidade’ do analista” aparece na página 839 dos Escritos:. Cf. LACAN, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano. (1960) In: LACAN, J. Escritos. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
[20] LACAN, 1962-1963/2005, op. cit., p. 197.
[21] SALMAN, S. Ânimo de amar. Opção Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 58, p. 110-111, 2010.
[22] KUSNIEREK, M, Une interprétation sans parole. In: Miller, J.-A et 84 amis, Qui sont vos psychanalystes? Paris, Seuil, 2002, p. 23-26.
[23] Lacan, J. O seminário, livro 10 (a angústia) (1962-63). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 160.
[24] LACAN, J. A terceira. (1974) In: LACAN, J.; MILLER, J.-A. A terceira, Teoria de lalíngua. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. p. 22.