Anatomia de uma queda[2], filme de Justine Triet, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2023, investiga a queda de Samuel, encontrado morto na neve do lado de fora de um chalé isolado nos Alpes franceses onde vivia com a família: sua esposa Sandra, uma escritora alemã bem-sucedida, e seu filho de onze anos, Daniel, deficiente visual.
O relatório da autópsia é inconclusivo em relação à queda de Samuel, e um inquérito por “morte suspeita” é aberto. O julgamento decidirá se a queda sofrida por ele, a queda do pai, foi acidente, suicídio ou assassinato. É Daniel quem encontra o pai morto ao voltar de um passeio com seu cão-guia, Snoop. Ele também se tornará a principal testemunha no inquérito.
Em sofrimento pela perda do seu pai, Daniel chora muito, não quer levantar-se da cama, tomar banho, comer. Nesse contexto, ele afirma: “Não entendo. Eu preciso entender”, colocando sua demanda de saber sobre o que aconteceu com seu pai.
O filme nos apresenta dois modos muito distintos de abordar a palavra de uma criança envolvida em uma situação judicial: uma pela Promotoria e outra por Marge, a acompanhante designada pelo tribunal com a função de zelar pela proteção da criança como testemunha.
Ao ser convocado para depor no julgamento de sua própria mãe, Daniel é confrontado pela Promotoria, pelos advogados de defesa e pela juíza quanto à versão dos fatos relatada por ele. Nesse momento, o jogo de câmeras acompanha o olhar do garoto perdido no meio da guerra de narrativas travada entre a acusação e a defesa, tornando patente a posição de objeto da criança, quando falam sobre ele, mas não com ele.
Outro momento em que a criança é tratada como um objeto se evidencia na cena em que ela assiste à minuciosa explicação científica da morte do seu pai. Daniel fica angustiado e invadido por detalhes técnicos, mas isso não é suficiente para a construção de um saber próprio sobre o que aconteceu.
Entretanto, considero que o ápice do modo como a Justiça trata a criança e sua palavra como um objeto se revela na cena da conversa entre a juíza e Daniel. Acreditando saber o que seria melhor para ele, a magistrada considera mais adequado poupá-lo e impedi-lo de participar do segundo dia de julgamento, porque, segundo diz, seriam abordados detalhes pesados. Prontamente, Daniel se opõe a isso, dizendo-lhe: “Eu acredito que eu posso ouvir tudo. Estou preparado.” “Você consegue lidar com isso? Temos que lidar com a verdade, abordar tudo, sem medo de te machucar”, diz a juíza. Daniel responde: “Já fui machucado. É por isso que eu preciso ouvir para eu poder superar tudo o que aconteceu comigo.” Mais uma vez, a juíza desconsidera o saber da criança: “O objetivo do julgamento não é te informar, mas estabelecer a verdade sem que tenhamos que nos censurar”.
Diferentemente da Promotoria e dos advogados de defesa, que querem arrancar alguma verdade de Daniel e desconsideram que ali há um sujeito, uma criança em sofrimento em busca de alguma resposta para o que ocorreu com seu pai, Marge ocupa outra posição. Ela é a profissional designada pelo Tribunal para acompanhar Daniel e proteger sua palavra. Temos um primeiro diálogo entre os dois: “Você pode me considerar uma amiga ou não, você escolhe”, ela diz à criança. “Eu não preciso que você seja minha amiga”, responde-lhe Daniel. Marge consegue escutar a criança e retificar sua posição diante dela: “Eu estou aqui para proteger o seu depoimento. Eu trabalho para a Lei. A Justiça me mandou e ela não pode ser amiga de ninguém. A Lei tem que ser igual para todo mundo. Então, você está certo, eu não posso ser sua amiga”.
Outro diálogo muito interessante acontece no final de semana anterior ao julgamento, quando Daniel deporá pela segunda vez por decisão própria. Marge passará esse final de semana com a criança para garantir que nada sobre seu depoimento seja questionado. Ele demanda, então, ficar sozinho antes do depoimento, sem a mãe, somente com Marge. Daniel está muito angustiado diante de sua incerteza por não saber a verdade sobre o que aconteceu. Durante uma caminhada, Marge consegue dizer algo à criança que me pareceu valioso: “Quando não temos uma prova, a única coisa que podemos fazer é decidir. Escolher”. Após essa conversa, Daniel visitará a cena da queda do pai e, assim, toma sua decisão, faz sua escolha em que acreditar.
A verdade no último ensino de Lacan
O amor pela verdade, sua busca por meio da decifração dos sintomas, deu origem à Psicanálise. Encontramos ao longo do ensino de Lacan uma mudança de prestígio em relação a ela. A desvalorização da questão da verdade é consequência de mudanças no estatuto do inconsciente, não mais considerado como lugar da verdade, mas modo de gozo.
De acordo com Miller[3], Lacan criou o neologismo varité, que condensa verdade (vérité) e variedade (variété), a fim de designar uma verdade variável ou melhor um efeito de verdade, indicando que cada verdade desloca, modifica a anterior. Não existiria, portanto, uma verdade absoluta e sim um efeito de verdade produzido pelas articulações dos significantes. Portanto, a verdade enquanto variedade não é mais que um semblante em relação ao Real.
Ao longo do julgamento de Sandra, o tema da verdade é também abordado de forma muito interessante. O psiquiatra do marido afirma categoricamente que é possível saber o que é verdade e o que é mentira no discurso de seus pacientes e torna Sandra a culpada pelos problemas sofridos por Samuel. Vincent, advogado de Sandra, fará uma interessante exposição sobre a relação entre verdade, ficção e literatura a fim de questionar o estatuto dessa suposta verdade encontrada no discurso dos pacientes. Portanto, enquanto o psiquiatra acredita ser possível ter uma relação direta com a verdade, o advogado, em sua argumentação, se aproxima mais da afirmação lacaniana da verdade como estrutura de ficção e da verdade mentirosa com a qual o analista lida em sua prática clínica.
Assim, o que essa investigação nos ensina é que, quando se busca na palavra da criança uma exatidão, nos deparamos com uma nova modalidade de objetificação e consequente segregação. Ao ser tomada fundamentalmente como verdadeira, retira-se da palavra da criança sua dimensão de semblante. O empuxo ao todo se mostra na forma do tudo dizer, fazendo da criança e de sua palavra um objeto das disputas judiciais.
Como nos diz Hélène Bonnaud[4], as palavras das crianças são transformadas em confissão. Falar a verdade não é mais possível quando isso cria vítimas e também culpados em série.
Cabe à Psicanálise apontar para o Real, situar o obstáculo nos ideais encarnados pelas diferentes instituições por onde a criança circula: Escola, Medicina, Família, Campo Jurídico etc. A Psicanálise deve adotar uma posição no social de restabelecer à criança sua dignidade de sujeito, restaurando o valor de sua voz, em sua versão equívoca, que se situa no espaço entre o dito e o dizer. É no espaço do mal-entendido que reside uma chance para o sujeito, para além do ideal jurídico de busca da verdade. Afinal, a busca pela verdade pode nos tornar cães farejadores que a perseguem, rastreiam e, em dado momento, arrancam-na a toda velocidade, encurralando suas presas, nos diz Miller[5].
Enfim, falar com a criança, tema de nosso último Enapol[6], é diferente de tentar arrancar-lhe uma suposta verdade.

