Lacan situa o cartel como porta de entrada na Escola. Essa afirmativa sempre me chamou a atenção, visto que ela já carrega em si mesma uma pergunta: que porta de entrada é esta? O que essa entrada diz sobre quem chega? O que levaria alguém a escolher essa modalidade de entrada na Escola? Tais perguntas que nos levam a esta: Com que se entra na Escola? Entra-se por um trabalho e não por um atributo de ser. Um trabalho que clama ao desejo de saber, e como Bassols esclarece, um saber que se inicia no Suposto Saber, mas que faz desse Suposto Saber o princípio de uma transferência de trabalho que faz de outros saberes, que não os da psicanálise, uma razão para interrogá-la[2]. Por isso, parece uma porta de entrada, nas palavras de Lacan, cujo “único meio de ela se entreabrir é […] do lado de dentro”[3]. Em outras palavras, é uma entrada pelo interior que inclui aquilo que há de infamiliar na relação de cada um com o saber, assim, uma elaboração provocada pelo real e não pela suposição de saber.
É a partir da relação com o saber que nos permite falar do cartel como dobradiça, pois, de entrada, é um dispositivo que provoca o intercâmbio. Nas palavras de Nohemí Brown:
Mais do que extrair um saber de outra disciplina ou oferecer o nosso, é possível localizar o limite do saber e, a partir dessa troca, abrir brechas que, não sem surpresa, forçam ao bem-dizer ou a uma forma, por vezes, inédita de considerar uma questão[4].
Ao pensarmos a prática do intercâmbio como aquilo que se articula não somente ao saber, mas com aquilo que faz furo no saber, retomamos justamente o que está em jogo no cartel, que em sua estrutura procura preservar o vazio fértil que funda um saber inédito. Por isso, toca em uma questão de bem-dizer.
Seria o intercâmbio um modo de colocar em prática a ação lacaniana visando recolher o que outras leituras fazem ressoar em nós, convocando invenções que estejam à altura do mal-estar da época? Não seria um modo de poder fazer funcionar de outra maneira a própria psicanálise? Como estamos de fato lançando mão desse dispositivo para causar o intercâmbio? Aqui, trago o intercâmbio não apenas em relação aos diferentes campos do saber, mas aos diferentes saberes que se colocam entre as seções da Escola e as diferentes Escolas do Campo Freudiano, na medida em que cada instituição e seus praticantes estão inseridos e são marcados por condições históricas, culturais e políticas diferentes. Assim, o intercâmbio convoca o modo singular que cada uma das Escolas ligadas ao Campo Freudiano pode ler e responder ao mal-estar na civilização e aos significantes-mestres específicos que emergem no laço social.
Se o cartel, como Lacan propôs, veio como um antídoto à insistência do discurso do mestre e dos carismas, como podemos pensar essa função no contexto atual da cultura e da Escola, quando levamos em conta que apresentar o produto de um cartel em uma Jornada também pode se configurar como um modo de a Escola ser interrogada e de a Escola se interrogar sobre o alcance da psicanálise no mundo? Pois aqui nos deparamos com a dobradiça entre a Escola e a civilização, e o cartel como dispositivo privilegiado – nosso órgão de base – para manter vivo o desejo de conversar com a época na qual a Escola e a psicanálise estão inseridas.
Encerro com uma pergunta: seria o cartel um modo de manter o laço com o Um que não se unifica, já que, pelo seu formato antissegregativo, pode incluir a solidão de cada um com a própria causa, abrindo a possibilidade de um novo laço com o Outro e com a Escola? Voltamos à porta de entrada…

