Mônica Hage[1]
Para falar sobre os efeitos que a participação no cartel da Nova Política da Juventude (NPJ) provocou na minha formação, escolhi tomar carona em uma passagem do evento de apresentação do livro O nascimento do Campo Freudiano publicado em ¿Reinventar la Escuela? Nesta passagem, Manuel Zlotnik afirma que o livro nos permitirá “reordenar as contingências passadas dando-lhes o sentido das necessidades por vir, nesses tempos de tantas transformações para a nossa comunidade”[2].
“A formação tem sua temporalidade própria”[3] e pode dar voltas com leituras que se reviram e se renovam, a cada vez, “com as idas e voltas que são necessárias para tratar o real em jogo na formação do analista”[4].
Christiane Alberti, na sua fala no Congresso de Membros da EBP, em 2023, destacou que Lacan, ao se referir à juventude, “não pretendia apreendê-la como uma característica, não mobilizando assim a juventude em uma dimensão imaginária”[5]. Apontando, portanto, para uma outra direção, Alberti destaca que se trata de necessidade de discurso e que a juventude é sensível ao discurso dominante. Ora, em sendo assim, que guia melhor para entender o momento presente?
Foi tendo a juventude como guia que o trabalho no cartel da NPJ, marcado por um encontro contingencial, aconteceu como uma experiência que deixou suas marcas. A mistura do novo e do velho pôde produzir boas surpresas. Leituras de velhos textos, com novas lentes, provocaram algo semelhante ao que pode acontecer numa análise: ler, a cada vez, a mesma coisa, de um modo diferente.
O meu tema de pesquisa no cartel, “O desejo do analista e o fazer Escola”, surgiu inicialmente do contraponto que traz Miller no texto “Teoria de Turim” entre o Um e o múltiplo, o individual e o coletivo, a solidão e o laço. O desejo do analista enquanto o desejo de isolar a diferença absoluta, “separar o sujeito dos significantes mestres que o coletivizam”[6], e o fazer Escola enquanto forma de estar no mundo, fazendo parte de um coletivo, descrente dos ideais.
Minha formação seguia nessa direção, acreditando que nesse percurso seria possível, de alguma maneira, articular e medir a distância necessária entre a causa singular do desejo e a causa analítica.
A frase de Lacan, “façam como eu, não me imitem”, me levava para um lugar onde algo de cada um poderia estar alojado no universal. “Repetir, por conta própria”[7] seria uma outra forma de dizer isso, o que aponta para um aparente paradoxo. Lacan, ao fundar a Escola, em “Ato de Fundação”, renuncia à solidão. Esse ato de renúncia, contudo, vem acompanhado de uma outra frase: “Fundo – tão sozinho como sempre estive em minha relação com a causa psicanalítica”, e aqui pode-se ler a pergunta que cada um de nós poderá se fazer: “Estou, ou não, sozinho na minha relação com a causa analítica?”. Dito de outra forma: que tipo de laço é possível fazer a partir da solidão de cada um? Neste ponto, talvez se entrelacem “O desejo do analista e o fazer Escola”. O primeiro como um operador que faz possível isolar a marca, a diferença inigualável entre uns e outros, e o fazer Escola como modo de estar advertido, como aponta Lacan, de que esse percurso não se faz sem “…alguns outros”.
Embora advertida de que do desejo de Freud procedeu uma comunidade que tomou a forma de uma sociedade analítica, ligada a um pai, e o desejo de Lacan foi além do pai, e dele procedeu uma Escola; sabendo que a Escola é não-toda, que não há todo da Escola, o apelo ao conjunto universal, às vezes, parecia estar presente.
O texto de Sérgio de Mattos, “Considerações sobre o AE como intérprete da Escola”, apresentado no Congresso de Membros em 2023 (ainda não publicado), lido e discutido no cartel, inclusive com a presença do autor, ressoou provocações, permitindo reler a “Teoria de Turim”, agora com novas lentes.
“A Escola como sujeito, a se realizar, é onde cada um é provocado a trabalhar a partir de seus S1.”[8] Essa frase põe em jogo vários pontos que ajudam a ler de um outro modo o texto de Miller quando ele toma a Escola como sujeito. Da “Escola sujeito”, passível de interpretação, a “A Escola como um sujeito a se realizar”, há um giro que permite entender a Escola como um work in progress.
“O passe enquanto um acontecimento na Escola interpreta o saber da Escola”[9], diz Mattos. Cada testemunho, ao interpretar alguns conceitos, não deixa de ser uma interpretação de como tais conceitos são transmitidos na Escola.
Assim foi ficando mais claro que o “O coração da Escola não é nem o NP, nem o falo totalizador, mas sim o vazio de S (Ⱥ)”[10]. Se não há saber, não há todo, mas sim um conjunto inconsistente. A Escola pode ser também o lugar onde cada um pode entrar com o seu estilo e o seu fazer, que será sempre único, não identificado a nenhum outro.
Para finalizar esses pontos de reflexão, proponho ampliar a frase “O passe assegura a presença da instituição nas análises”[11], pensando também que as análises podem assegurar uma nova leitura da instituição. O analisante, assim como a Escola Sujeito, enquanto algo inacabado, ao modificar a sua relação com o seu S1, nessas voltas e reviravoltas, poderá modificar também a sua relação com a Escola, tomando-a agora de um novo lugar. Isto torna possível articular a distância necessária entre a causa singular do desejo e a causa analítica, mas agora tendo S(Ⱥ) como bússola.

