Angela C. Bernardes
Venho aqui trazer notícias do trabalho de um cartel na experiência da Nova Política da Juventude (NPJ) na EBP.
O título dessas notas – “Princípios da formação” – refere-se tanto aos princípios norteadores, aos fundamentos, quanto a início. E aqui também cabe o plural, pois refiro-me aos inícios. Início de cada uma na formação de analista, plural porque somos cinco, mas plural também porque sempre é tempo de começar na formação permanente de um analista.
Como todos sabem, no início de 2023, o Conselho da AMP propôs a “Nova Política da Juventude”. Relembro aqui o que motivou essa iniciativa e o lançamento da proposta. A admissão de novos membros nas Escolas da AMP é restrita a 4% do número de membros através de critérios que acabam por selecionar prioritariamente praticantes com uma vasta trajetória no campo. Ou seja, em sua maioria, os novos membros já não eram mais jovens e a maioria dos antigos membros já tinha idade avançada. Para além da questão etária, a aposta num rejuvenescimento da Escola lançou a possibilidade de admissão de um número maior do que os 4%. Ou melhor, para além da admissão de 4% do número do total de membros, as Escolas poderiam propor ao Conselho da AMP um número indeterminado de “membros sob condição” cuja seleção seguiria outros critérios e seria restrita a participantes com idade máxima de 35 anos. Cada Escola da AMP construiria seus critérios e propostas de trabalho com esses participantes da Nova Política da Juventude. Um rico debate se abriu nas diferentes Seções da EBP, como imagino que deva ter acontecido nas outras Escolas também.
Não quero retomar os pontos desse debate, mas pensar sobre os efeitos dessa experiência.
Em maio de 2023, o Conselho da EBP abriu inscrições para jovens interessados em participar da NPJ na Escola. Um grande número de jovens foi selecionado, e a forma encontrada pelo Conselho para inserção daqueles no trabalho de Escola foi através de cartéis compostos com dois deles, um AME da EBP/AMP e mais dois membros de diferentes Seções da EBP. Ao todo, formaram-se 24 cartéis, num verdadeiro movimento de Escola.
Da minha parte, posso dizer que foi uma experiência muito interessante a de retomar com as colegas, dentro da perspectiva do tempo de começar na Escola, o tema da formação do analista. Não por acaso, uma boa meia dúzia de cartéis da NPJ tem o sintagma “formação do analista” no título. Não é já um efeito da NPJ que tantos membros tenham se dedicado explicitamente ao tema nesses dois últimos anos? Recapitulando os textos trabalhados em nosso cartel, verifiquei que o primeiro foi um de Jacques-Alain Miller intitulado “Sobre a formação do analista”, que deu o nome do cartel que inscrevemos em novembro de 2023.
Sabemos que um analista se forma em sua análise, sendo também imprescindíveis o trabalho conceitual e a supervisão clínica. Esses três alicerces compõem o que ficou conhecido como o tripé da formação. Um quarto elemento vem enlaçar esses três na formação permanente do psicanalista de orientação lacaniana: a Escola.
A lógica do cartel, o trabalho de Escola, a transferência de trabalho foram temas que perpassaram nossas conversas ao longo desses anos.
Lemos textos sobre a elaboração provocada no trabalho em cartel e os diferentes discursos que podem regê-la.
A leitura de dois escritos institucionais de Lacan – “Ato de fundação” e “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola” – junto com comentadores foi entremeada com questões de atualidade do funcionamento da Escola. Notícias sobre os eventos nas Seções e onde cada uma estava envolvida eram comentadas. Os temas que instigavam cada uma retornavam e eram discutidos nos encontros do cartel.
Esse cartel, formado por sorteio com colegas de diferentes Seções da EBP, permitiu consolidar uma transferência que não se apoia no Sujeito Suposto Saber e sim no desejo de fazer Escola.
Nosso primeiro ano de trabalho foi muito ativo. A (re)leitura da “Proposição…” nesse contexto renovou meu laço com a “causa” analítica de tal modo que quis relê-lo no contexto da experiência “Rumo à Escola” proposta pela Comissão de Ensino do ICP. E, uma vez mais, encontrei-me com o desejo de transmitir o princípio de uma transferência de trabalho na Escola. E talvez seja a conexão com esse princípio o que nos faz jovens.

