Lucas de Petribú G. R. Dias
Este é um produto concebido no cartel “Questões atuais sobre a psicose”, composto por Eliana Castro (EBP/AMP), Cristiane Iatauro, Felipe Aquino, Nathalia Chagas e Lucas de Petribú como Mais-um. Durante nossos encontros, deparamo-nos com uma referência de Jacques Lacan a Friedrich Nietzsche no Seminário 3, As psicoses. Embora seja um filósofo conhecido, eu ainda não havia lido com atenção sua obra. Eis que, tomado pela leitura de Assim falou Zaratustra, pus-me a escrever, mesmo que isso não tivesse relação direta com minha questão inscrita no cartel, que era relativa à função do “secretariado do alienado”.
Há uma cena em que o sábio Zaratustra, sob o céu nem escuro e nem claro que precede o amanhecer, encontra-se tomado de um desejo divino. Nesse momento, ele fala que o céu puro e profundo é um abismo de luz, para proclamar o que ensina: “sobre todas as coisas está o céu Acaso, o céu Inocência, o céu Contingência, o céu Exuberância”[2]. A realidade, para Zaratustra, não é submetida a uma racionalidade última, nem à finalidade, mas, ao contrário, é celebração da contingência. Nietzsche não teme afirmar: “Em tudo, uma coisa é impossível – racionalidade!”[3] e atribui a sabedoria do céu a partir do silêncio, por transmitir a sabedoria através de uma fala muda, sem voz.
Este canto nietzschiano, de uma leveza trágica, reverbera no ensino de Lacan, quando ele aborda no Seminário 3, As psicoses, a “paz do anoitecer”[4]. Lacan convoca a figura da paz do anoitecer como aquilo que se impõe ao sujeito em um instante onde ele menos espera – um significante no real que irrompe sem ser previsto, desejado ou produzido. E, como diz Marcus André Vieira, “a paz é mais decisiva que o entardecer”, pois antecede e sobrevive a ele[5]. Assim, temos que a paz não é um efeito da variação da luz, mas uma experiência que habita a cultura, uma inscrição que, ao mesmo tempo, antecede e ultrapassa o sujeito.
É nessa articulação que se abre a possibilidade de leitura conjunta: em Nietzsche, o céu, silencioso acolhe o mais íntimo desejo de Zaratustra, que nele reconhece um amigo antigo, com quem partilha uma tristeza abissal e uma potência de elevação. Este céu não fala – e é precisamente nesse silêncio que proclama sua sabedoria. Assim, também Lacan nos convida a perceber que certos fenômenos são significantes no real justamente porque não significam, ou melhor, não remetem a um conteúdo elaborado. A paz do anoitecer é, como o próprio Lacan diz, uma formulação que nos chega de fora, que nos surpreende e se impõe como um murmúrio, manifestação do discurso enquanto ele mal nos pertence.
Há algo na experiência humana que faz com que, diante da alternância do dia e da noite, o sujeito não apenas registre empiricamente as variações de luz, mas as inscreva como códigos significantes. O dia e a noite são, antes de mais nada, articulações simbólicas que permitem ao sujeito operar um distanciamento da sua imersão natural. Não se trata apenas da percepção do claro e do escuro, mas da produção significante.
Assim como Zaratustra encerra o texto brincando que o céu ficou envergonhado e enrubesceu por causa de suas palavras – e, por isso, precisaram se afastar, pois nem tudo pode ser dito diante da luz do dia[6] –, o sujeito lacaniano também se vê convocado a enfrentar o real: esse ponto que não se deixa simbolizar inteiramente, esse significante que irrompe no campo da experiência sem que dele possamos extrair um sentido último. Nietzsche e Lacan falaram em “paz”, mas, nesse caso, quais outros significantes no real podem surpreender o sujeito? Angústia, horror, medo, ansiedade, felicidade, ternura, excitação, culpa, espanto. Ou até contrário da paz do amanhecer, o alvoroço da alvorada.
O real, em Lacan, não é o empírico (como o pôr do sol ou o nascer do sol), mas aquilo que insiste, que retorna sempre ao mesmo lugar, como indecifrável. E é por isso que a paz do entardecer é, ao mesmo tempo, o repouso e a inquietude: ela nos surpreende, nos toma, mas também nos lembra daquilo que escapa. Como escreve Lacan a respeito do significante pacificante: “é sensível que menos o articulamos, menos falamos, e mais ele nos fala”[7] a partir de “alguma coisa que nos é dita de fora, daquilo por que em última análise o mundo nos fala”[8].
Márcia Rosa relembra e elogia o retorno poético de Lacan, em 1966, quando ele enunciou: “o inconsciente é Baltimore, ao amanhecer”[9]. Nesse contexto, ele relata que, ao escrever a conferência nas primeiras horas da manhã, observando a cidade ainda coberta pela penumbra, percebeu que Baltimore, entre a noite e o dia, sem contornos nítidos, era a melhor imagem do inconsciente: um campo ainda sem forma definida, onde algo se esboça, mas sem se dizer por completo. A metáfora evoca um espaço de emergência do significante, onde tudo ainda pode acontecer, mas nada está claramente dado.
Assim nasceu este texto como produto de um cartel. Sendo levado pelo empuxo da escrita, como quem é tomado por uma luz que ainda não se fez dia, ou tomado por um trabalho ainda em curso. No percurso entre Zaratustra e Lacan, entre o silêncio do céu e o murmúrio do real, algo se escreveu sem ter sido previsto. E o texto raiou no alvoroço da alvorada.

