Doris Rangel Diogo
Este trabalho é produto do cartel A formação do analista no âmbito da Nova Política da Juventude (NPJ) da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) do qual participo com os cartelizantes Vinícius Lima, Rafaella Cunha, Virginia Fernandes, Rômulo Ferreira e Daniela Araujo, como mais-um. Neste trabalho, comento um acontecimento na abordagem de um texto cujos efeitos reverberaram no meu tema de pesquisa e na leitura do lugar dos cartéis hoje na Escola.
Nos debates sobre cartel, por vezes, surge a questão do fracasso deste dispositivo. Miller[1] (2010/1994) disse que o Plano Lacan, no qual o cartel era um “órgão de crítica e de controle”, nunca se realizou integralmente. Ele interrogou se era o caso de uma reformulação desse plano. Lá se vão alguns anos, e, até o momento, essa reformulação não ocorreu. Os cartéis estão por toda parte, inclusive nas instâncias decisórias da Escola, como o Cartel do Passe, do Seminário Clínico, da NPJ, e no âmbito decisório das Seções. Esse movimento atual dos cartéis na EBP se inspira ou não no Plano Lacan?
O Plano Lacan
Lacan, no Ato de Fundação da Escola Freudiana de Paris (EFP), propôs que a Escola funcionasse nos diversos setores sob a forma de cartéis que teriam uma função de avaliação. Uma década após, em 1975, Lacan[2] reconheceu que esse plano não acontecera. Diante desse impasse, insistiu, convidando os analistas a se implicarem em sua formação e na transmissão da psicanálise de um modo distinto dos modelos dos cursos magistrais regulados pela hierarquia e pela burocracia. Em D’Écolage, na Dissolução da EFP em que deu partida à Causa Freudiana, Lacan restaurou o cartel como órgão de base de sua Escola afirmando que desse dispositivo “não se espera nenhum progresso além daquele de uma exposição periódica, tanto dos resultados quanto das crises de trabalho”[3]. Os tropeços não lhe dissuadiram de relançar a aposta que não visava a um ideal, mas um modo de funcionamento não hierárquico sujeito a impasses e até mesmo ao fracasso.
O cartel na Escola hoje
Na última Jornada de Cartéis, tivemos um número expressivo de trabalhos, com variados níveis de articulação. A que se deve esse movimento atual dos cartéis na EBP?
Em “O plano Lacan no século XXI”, Fernanda Otoni afirma que “o cartel é, hoje, uma forma viva de vinculação ao trabalho de Escola, à altura de nossa época”[4]. Nesse movimento efervescente, a autora percebe efeitos das mutações dos laços sociais devido a um questionamento da hierarquia em que jovens e analistas experientes gravitam em torno da Escola sem um endereçamento à suposição de saber do mestre e que alguns cartéis funcionam sem prévia transferência com o mais-um. Otoni comenta sobre o que enlaça os participantes: “A força que engaja cartelizantes nessa causa parte do desejo de leitura e elaboração de um impasse, uma crise, a partir do que ressoa como inominável em cada um”[5].
Acontecimento no cartel da NPJ
A entrada neste cartel se deu por meu consentimento ao convite do Conselho da EBP, que definiu o arranjo: três jovens, dois membros praticantes e um Analista Membro da Escola (AME). Pelos efeitos, a experiência foi bem-sucedida neste pequeno coletivo, onde a função do mais-um circulou, houve enunciação e produtos foram endereçados à Escola. A decisão de realizar o acompanhamento dos jovens através desse dispositivo diante da política deflagrada pela AMP indica que a aposta do Conselho reconheceu a potência dos cartéis na Escola, o que não ocorreu em outras Escolas da AMP.
Em uma reunião do cartel da NPJ, abordamos a “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, onde Lacan (1967) estabeleceu as coordenadas de funcionamento da escola que acabara de fundar. Nesse escrito, ele afirma que “há um real em jogo na formação do analista e que as sociedades existentes inclusive fundam-se nesse real.“[6] Lacan foi contundente ao enfatizar o caráter fugidio dessa experiência: “esse real provoca seu próprio desconhecimento, ou até produz sua negação sistemática”[7], o que acarreta uma dificuldade para circunscrevê-lo.
Neste encontro, fui fisgada pela leitura de um cartelizante que demonstrou fina articulação conceitual sobre o real em jogo na formação do analista. Sua leitura ecoou de um modo novo, e lhe perguntei: o que estamos dizendo quando nos referimos ao real na formação do analista? Como cernir esse real na experiência de autorizar-se como analista? Com isso, extraí novo tema de pesquisa: como localizar o real em jogo no dispositivo do cartel? Esta questão produziu um deslocamento do tema inicial – a transferência no movimento de candidatura de jovens à Escola. Em função dessa virada, apresentei o texto “O real em jogo no cartel”[8] na última Jornada de Cartéis da Seção-Rio, que retomo hoje.
Destaco duas possibilidades para tocar o real no cartel:
– A primeira quando Otoni[9] afirma que a base do trabalho neste dispositivo repousa sobre um real em jogo cuja ação diz do esforço em abordá-lo, o que implica em não se deter diante das dificuldades que surgem, mas tentar enlaçá-lo com os outros registros, no cartel.
– A segunda, uma contingência, quando Victoria Reinoso[10], após o passe, atribui o estatuto de S1 ao significante “murmúrio”, que convocava seu gosto pelo deciframento dos ínfimos detalhes dos casos de psicose ordinária em um cartel e pôde fazer nova leitura do que lhe interpelava no trabalho com outros neste coletivo. Parece que Reinoso enlaçou o traço singular, “murmúrio”, que tangenciou o real da voz, localizando o embrião do desejo de saber e do desejo de analista.
Apostar nas tentativas de enlaçar os três registros da experiência – Real, Simbólico e Imaginário – no cartel não deixa de ser uma forma de fracassar da boa maneira.

