Isa Gontijo Moreira[1]
Este texto vem na esteira da pergunta lançada na chamada aos trabalhos para esta Jornada de Cartéis: o que seria um acontecimento de cartel? Ou um cartel-acontecimento? Retiro das contribuições dos colegas as primeiras provocações: uma experiência expandida; o que da escrita do cartelizante e de sua enunciação pode surpreender o próprio autor; aquilo que toca o corpo; o que da produção própria – no encontro com a Escola – toca o corpo; o que da busca e desejo de saber alcança algo na escuta clínica, ou na análise pessoal; aquilo que move. Escrevo então, porque, de alguma forma, meu encontro com esta Escola, na Jornada de Cartéis do último ano, foi da ordem de um acontecimento.
Estive aqui há um ano apresentando um texto menos conclusivo e mais de abertura de trabalhos no meu cartel, um texto sobre o corpo, que levantava como hipótese a possibilidade de leitura do corpo como primeiro grande Outro no último ensino de Lacan. A pergunta era ambientada pelo filme Pobres criaturas (Poor Things, 2023), e enderecei ao cartel aquilo que da escrita de minha tese de doutorado havia restado como uma pergunta em aberto, questão que ficou de fora pois era de pouca-valia acadêmica – um resto mal tratado, portanto, um resto do saber. Como sempre se recolhe da pergunta algo da resposta em sua forma invertida, o que recebi, no encontro da pergunta com a Escola, não foi, no entanto, o a-mais de saber que eu julgava buscar, mas, pelo contrário, um apontamento diretivo daquilo que eu não queria saber jamais, de um saber rechaçado por mim em análise. Apontamento diretivo? O cartel me apareceu em um sonho.
Estava na sede da EBP-Rio, acontecia uma exposição sobre um caso clínico. Sentei-me para ouvir, e a expositora disse: “Você sabe que caso está sendo discutido hoje? O seu!”. Aterrorizada, saio correndo e subo as escadas de madeira até o segundo andar. Na sala superior, começo a revirar um baú antigo e dele retiro vários objetos pessoais. Jogo fora o que não me importa e parecia determinada em uma busca específica. Até que retiro do baú um pedaço de tecido esgarçado, desgastado, maltrapilho, com bordas quase em dissolução cujas linhas se soltavam em minha mão. Guardei, para minha surpresa, aquele pedaço horroroso de tecido de utilidade nula, com alívio.
O tecido maltrapilho era um farrapo – nome do cartel onde era cartelizante, e foi, para mim, em sonho e em acontecimento, marca de corpo da extração do objeto a, causa de desejo, para um deslocamento subjetivo importante no campo do saber. Cito Lacan no texto-passagem que nomeou aquele cartel:
Esse momento de corte é assombrado pela forma de um farrapo ensanguentado: a libra de carne paga pela vida para fazer dele o significante dos significantes, como tal impossível de ser restituído ao corpo imaginário; é o falo perdido de Osíris embalsamado[2].
Um sonho, portanto, de corte, reconfiguração: a libra de carne paga pela vida, Lacan nos lembra, refere-se ao objeto perdido que, porque perdido foi, pode-se fazer causa do desejo. Um corte verificador de um furo no Real, um impossível de ser recoberto, que pode abrir espaço a outros movimentos. De um primeiro texto armado por teorias sofisticadas e elucubrações dificílimas sobre o último ensino de Lacan, senti-me convocada a pagar meu preço abrindo mão de um lugar estabelecido no campo do saber para saltar a uma implicação pessoal a respeito das questões que propunha trabalhar. Não custa lembrar: este sonho apareceu depois, e apenas depois, que produtos destes trabalhos (de análise e de cartel) foram endereçados à Escola, produtos similares, mas distintos, divididos em duas apresentações, duas ocasiões: na Jornada de Cartéis da EBP-Minas (em maio de 2024) e na Jornada de Cartéis da EBP-Rio (em agosto de 2024)[3]. O hiato entre as duas apresentações e a amarração que pude fazer no cartel a partir do que recolhi de seus efeitos na Escola foram o que, penso eu, possibilitou a insurgência desse sonho, fazendo retornar nas margens desse furo Real algo em mim recalcado.
O encontro com a Escola e com este sonho-acontecimento, cortes assombrados, me deram, então, a chance de conhecer aquilo que Lacan chamou de um saber alegre – não aquele que se procura, aquele que se encontra[4]. A “gaia ciência” ou a satisfação deste outro saber advém não daquilo que se incorpora, mas antes daquilo que se dispõe a perder, da possibilidade aberta no trabalho analítico ou no trabalho de Escola, que perturbam o sentido e desestabilizam o já estabelecido. Distinto de um saber intelectual, de acúmulo construído, este saber-acontecimento vem primeiro como perda, se apresenta como surpresa e acontece como experiência, como trabalho de escola e marca de corpo.
Com o farrapo de saber que agora eu tenho em mãos, posso, então, me endereçar novamente a esta Escola, a partir do que em mim abriu a possibilidade de avançar em análise e que marcou em mim não a presença de um aprendizado, mas da abertura de desejo por um novo lugar, o lugar de analista.

