Ana Tereza de Faria Groisman[1]
No final de junho deste ano, encerramos os cartéis formados pelo Conselho da Escola Brasileira de Psicanálise com a finalidade de acompanhar os dois anos de trabalho dos primeiros participantes da Nova Política da Juventude (NPJ), atendendo a uma iniciativa proposta pela AMP.
Com a Nova Política, um significante se introduz: “juventude”. Tomar essa iniciativa como um ato que interpretava a Escola nos colocou a trabalho desde sua proposição: o que define a juventude? Que lugar era oferecido aos jovens em nossa comunidade? A Escola estava envelhecendo junto com seus membros? Questões que colocavam em xeque a formação, a inserção da Escola na polis, o processo de admissão de novos membros e um encontro com o real do tempo que nos confronta com o que arrisca desaparecer.
O funcionamento de uma Escola inclui falhas, tropeços e ajustes constantes, o que muitas vezes implica em mudanças para conter os desvios que nos afastam do que supomos ser analítico[2]. Tiquê e automaton, acontecimento e repetição, são elementos em constante tensão que compõem o movimento Escola – um não se dá sem o outro. Como em todo agrupamento humano, uma instituição de psicanálise tende à acomodação e ao enrijecimento em torno de um saber que funciona, mesmo que nem sempre, nem completamente. Como ironiza Lacan, as formas instituídas asseguram uma rotina que gera comodidade[3].
A Escola não equivale a suas formas instituídas e institucionalizadas. Suas bordas e limites são instáveis, indefiníveis. Sabemos que a comunidade daqueles que a sustentam é muito maior do que a reunião de seus membros. A cada Jornada, Seminário, Congresso e Encontros, vemos reunidos um número de colegas interessados em participar do que movimenta a Escola em sua formação, o que a torna um organismo vivo, em constante atividade e renovação.
O que dificultava o pedido de entrada para membros, entre os jovens que frequentam a Escola? Certamente, as exigências de tempo de formação, bem como a inserção nos eventos da Escola, com apresentação de trabalhos e sustentação de uma orientação epistêmica, contribuíam para isso. Porém, era preciso olhar para a forma de acolhimento aos que se aproximavam da Escola e para um certo efeito de inibição que se produzia entre os iniciantes. Podemos concluir que era urgente introduzir algo novo no processo de admissão dos membros e que a Nova Política da Juventude foi concebida nesse intuito.
O cartel do qual participei durou exatos dois anos. Como os demais, ele se formou a partir de um sorteio, o que não coincide com um dos princípios básicos do cartel: “Quatro se escolhem para prosseguirem num trabalho que deve ter um produto. Eu preciso: um produto próprio a cada um, não coletivo.”[4]
Ao participar do nosso último encontro, pude reavaliar a experiência olhando pelo lado de fora. Como num efeito anamórfico, só agora posso descrever o que se desenhou no caminho.
Retomo, então, nosso ponto de partida: a lógica dos três prisioneiros. Em nosso primeiro encontro, a Analista Membro da Escola (AME) que participava do grupo sugeriu que um dos dois jovens participantes da NPJ assumisse a função de Mais-um. Um deles tomou a palavra e respondeu, dizendo como seria ocupar tal posição. Em seguida, apoiado na lógica dos três prisioneiros, o outro “jovem” assinalou que, ao se precipitar em responder, já tomava para si o encargo da função. Uma intervenção que teve efeito de interpretação e foi prontamente acolhida por todos os participantes. Nesse encontro, além da escolha do Mais-um, considero que houve também a escolha de cada um em seguir com a experiência – ali nos escolhemos para seguirmos juntos naquela empreitada.
Nessa ocasião também se desenhava, sem que o soubéssemos, uma lógica de funcionamento de cartel. Pois, como nos ensina Miller: “[…] quando duas ou três pessoas falam juntas, vão saber depois quem fez emergir a coisa: há aquele que disse, há aquele que a fez dizer e aquele que se percebeu que era importante.”[5] Essa definição do trabalho de cartel descreve o que se espera numa elaboração coletiva: um certo desapego do lugar de autoria e um laço de confiança que nos leva a entregar nossos pitacos, contribuindo no trabalho de cada um. O lugar de autoria será recuperado mais adiante, a cada vez que um produto for apresentado, em nome próprio.
O interesse que enlaçava o grupo nos levou a selecionar os textos ditos “institucionais” de Lacan: “Ato de fundação”, “Proposição…” e “Carta de dissolução” foram, inicialmente, propostos para que as questões que animavam o grupo pudessem ser encaminhadas.
O que é um trabalho de Escola? Qual sua função na formação do analista? Como podemos nos inserir nesse movimento? De forma ampla, essas foram as perguntas que acompanharam o trabalho, permeadas por outras mais específicas, sobre o passe, a articulação entre hierarquia e gradus, a organização das Escolas e Seções e, finalmente, o próprio funcionamento do cartel.
Os textos já lidos e relidos por nós ganharam o frescor de uma primeira vez. Se, por vezes, me vi convocada a dizer o que já sabia sobre o tema, em muitas outras me vi interrogada pela leitura inédita que a participação dos colegas trouxera para os encontros. A animação dos “jovens” empolgou os “velhos” e, em diversos momentos, nos levou a repensar nosso modo de fazer Escola.
Os encontros da EBP que reuniram os participantes da NPJ, em especial o Encontro Brasileiro, a Jornada de Cartéis e a reunião com os AME (de que participei como membro do Conselho da EBP), se infiltraram nos encontros do cartel, permeando a fronteira do pequeno grupo com inserções no coletivo Escola, interrogando nosso funcionamento e o trabalho em andamento, em concordância com uma experiência de Escola.
O que é uma experiência de Escola? Segundo Miller, uma Escola orientada pela lógica do não-todo “deve preservar sua inconsistência como seu bem mais precioso, seu agalma”. Essa inconsistência não comporta hegemonia, é preciso cuidar para que não acreditemos saber o que é um analista, nem como ele se forma. Miller sugere que a Escola seja tomada como um sujeito dividido, determinado pelos significantes dos quais é efeito[6]. Se a proposição da Nova Política foi um ato, sua experiência teve efeitos de interpretação na Escola e em cada um que participa dela. Uma Escola que pretende acompanhar a formação do analista deve manter-se aberta à interpretação e à surpresa, descolando-se de suas suficiências adquiridas.
Pude perceber, a partir dos trabalhos apresentados e da reunião promovida pelo conselho, que cada Cartel da NPJ funcionou de forma muito particular, mas no geral, destacou-se a riqueza dessa experiencia, e dessa nova orientação na política de entrada de novos membros.
A NPJ produziu em mim uma inquietação e uma questão que ainda insiste: como prosseguir com a experiência desencadeada por ela e como fazê-la reverberar pela Escola?

