Camila Drubscky
Com a proximidade da Jornada de Cartéis da EBP-Rio e a minha participação em dois cartéis, senti-me convocada a apresentar um trabalho, um produto singular. Inicialmente, fiquei sem saber como avançar: se, por um lado, sabemos que essa produção não é da ordem da obrigação, por outro, é desejável que cada um dê testemunho do seu percurso.
A primeira ideia que surgiu para este trabalho, espécie de automaton, foi escrever um texto que enlaçasse a construção de um caso e a pesquisa que propus em um dos cartéis[1] em torno desta afirmação de Lacan[2]: “Deixemos o sintoma no que ele é: um evento/acontecimento corporal”.
Na mesma época, em um encontro do Seminário sobre a Política da Psicanálise, surgiu a discussão acerca de um possível “fracasso” da Jornada de Cartéis; mais precisamente, a ideia de que a Jornada de Cartéis seria o fracasso dos cartéis. Ao chegar em casa, fui tomada por uma agitação no corpo que se transformou em angústia. No dia seguinte, precipitou-se uma questão: qual seria a diferença dos trabalhos endereçados às Jornadas de Cartéis e aqueles dirigidos a outros dispositivos? Há diferença? Há de ter? Um clarão se abriu e decidi fazer dessa questão o ponto de orientação do meu trabalho.
Buscando alguns textos de referência, deparei-me com a seguinte elaboração de Gerardo Battista:
[…] cartelizarmos para tal tema, em tal jornada, ou apresentar um trabalho de cartel recém-inscrito implica um risco de que o cartel se reduza a uma modalidade de trabalho? Não é o mesmo pensar o cartel como uma modalidade de trabalho ou como algo que fomenta um trabalho de Escola. […] Quando podemos constatar que um grupo se constituiu como cartel?[3]
Reduzir o cartel a uma “modalidade de trabalho” é o mesmo que o reduzir a um grupo de estudos? Será que a dobradiça ensino/transmissão pode ajudar aí? Estariam os grupos de estudo mais no campo do ensino e os cartéis mais no campo da transmissão? Romildo do Rêgo Barros[4] propõe uma distinção entre ensino e transmissão, afirmando que eles são excludentes. Ele sustenta que a contradição entre ensino e transmissão precisa ser mantida para que a psicanálise possa se manifestar como ato, como alguma coisa que, tendo acontecido, nada será como antes. Barros traz o exemplo de um aluno que fica angustiado numa aula de psicanálise. Nessa irrupção sintomática, propõe ele, nesse acontecimento de corpo, está a separação entre transmissão e ensino. É um ponto em que o ensino ficou para trás e algo da transmissão se manifestou.
Podemos localizar nessa distinção o caráter testemunhal dos trabalhos elaborados em cartel, quando estes funcionam como tal? Creio que sim. Funcionar como tal, parece-me, diz respeito a fazer entrar e trabalhar o traço e o sintoma de cada um pelo coletivo, produzindo uma enunciação analisante.
Em uma entrevista sobre os cartéis na EBP[5], ainda, Romildo do Rêgo Barros toca a minha questão ao situar a tensão que o dispositivo do cartel encarna: de um lado, produção de saber; de outro, porta de entrada na Escola. A partir daí, ele diz não estar certo de que as Jornadas de Cartéis, no caso de se limitarem à leitura e discussão de trabalhos, conseguiriam superar esse desafio. Quando a tensão se afrouxa, a produção de saber tende ao formato dos grupos de estudo e a apresentação à Escola torna-se burocrática. A hegemonia do discurso universitário se coloca, anulando a dimensão sintomática. Pergunto: comprometendo a enunciação?
Depois de percorrer uma série de textos sobre essa temática, foi possível situar algo do que aconteceu no meu corpo aquela noite. Antes de endereçar minha formação à Escola, fiz parte de outra instituição. Em determinado momento daquele percurso, interessei-me em estudar sobre a formação dos analistas e, ali, não encontrei interlocução. O interesse adormeceu. Pouco depois, desliguei-me de lá e comecei a me aproximar da EBP. Quando decidi que era nesta instituição que eu queria apostar, escolhi entrar pela porta do cartel. O primeiro trabalho que apresentei na Seção foi em uma Jornada de Cartéis. Escrevi a partir da experiência de participar de um cartel pela primeira vez, buscando me situar em relação à novidade desse dispositivo para mim. Dois pontos decantaram-se nessa escrita: a importância do trabalho no coletivo do cartel para cernir/construir uma questão e a função do Mais-um como aquele que, dentre outras coisas, encarna algo diferente da mestria.
Arrisco dizer que testemunho, hoje, um efeito de transmissão que relançou o meu desejo de saber sobre a formação dos analistas, acrescido do desejo de interrogar o uso que fazemos do dispositivo dos cartéis e o quanto nos servimos dele para interpelar o seu próprio funcionamento e a Escola.
O encontro com as palavras enunciadas no Seminário de Política da Psicanálise me afetou[6]. Afirmação contundente que tocou o percurso anterior e pareceu pôr em risco a interlocução que supus ter ganho na Escola. O que pude perceber, concluindo o texto, é que a sua escrita não foi sem a questão proposta no cartel. Eu parti do corpo e a ele voltei!

