Alessandra Thomaz Rocha
O cartel como célula de base da Escola se fundamenta no discurso do analista e se apresenta como uma experiência com um coletivo que se enlaça e faz cola quando o nó se sustenta. Fundamentado na lógica de Escola, o cartel não se constitui como um grupo qualquer, mas como um pequeno grupo subversivo, antiautoritário, sem líder, tal como Lacan o concebeu[2]. Ele se constitui como um laço sustentado por uma transferência de trabalho que pode dar corpo a um acontecimento. A lógica do cartel não está desvinculada do discurso do mestre, na medida em que este último se constitui como pivô do laço social. Porém, articulada ao discurso do analista, aquela lógica permite que se opere um despertar para o novo a partir de uma subversão. Ou seja, o analista, ao se submeter ao discurso do mestre, só o faz com a condição de subvertê-lo de forma a operar com os semblantes desnudando o real. Assim, é a partir de um furo no saber, deste real que se apresenta diante do encontro neste pequeno grupo, que se abre a possibilidade de um enlaçamento. Ou seja, a partir do momento em que cada um, com o fio de seu sintoma, se introduz e faz desse furo um ponto em torno do qual busca tecer um novo saber. Trata-se, nesta experiência de enlaçamento, de construir, a partir de cortes e costuras, um nó a partir de nossas faltas e restos.
A experiência de fazer parte de um dos cartéis da Nova Política da Juventude (NPJ) tem sido, para mim, um aprendizado, uma oportunidade de exercitar a crítica no trabalho que se faz em cartel e de contribuir com o trabalho de Escola. O trabalho em cartel ao longo de meu percurso tem sido assim, mas desta vez há um elemento novo: os jovens. Estes, ao trazerem para o trabalho suas questões, nos dão um novo ar, oxigênio, que se apresentou como uma oportunidade de renovar a relação com a causa do desejo que me anima em minha relação com a Escola. Foi diante desta oportunidade que me surgiu a questão: “o que se escreve do que se enlaça em um cartel?”.
É importante ressaltar que, independentemente da forma como se constitui um cartel, o que o sustenta é a possibilidade de fazer, deste encontro furado, uma experiência de saber. O fundamental, a mágica de seu enlaçamento, se dá a partir de seu funcionamento, na lógica do cartel e não em sua origem. Nesse sentido, os cartéis compostos pela NPJ são cartéis como quaisquer outros, porém, com esse elemento novo, que nos permite novas trocas e desafios. Trata-se de fazer das diferenças oportunidades de novos laços contra a segregação, e do furo no saber uma nova via para a transmissão da psicanálise para as novas gerações.
Diante dessas questões, surgiu-me uma frase que me permitiu articular um saber sobre o que se produziu de novo em mim nesta experiência: “Um nó segura o mundo”. E o cartel se constitui também como esse nó, feito a partir dos fios, nós ou sintomas de cada um.
Se, de acordo com Lacan, “o artista precede o psicanalista”, a frase que dá título a este escrito, do artista visual Ernesto Neto, é a encarnação do ensino de Lacan numa obra de arte contemporânea. Essa frase é lacaniana sem que o artista o saiba. É da ordem de uma enunciação, de um saber não sabido, transformado em objetos de arte. O artista, de acordo com Lacan, “revela saber sem mim aquilo que eu ensino”[3]. Ao escutar essa frase do artista, que, segundo ele mesmo, foi um princípio que o orientou em seu trabalho artístico, A-B-A (chapa-corda-chapa), foi o nome da obra, através da qual ele formulou inicialmente este princípio, que o orientou a partir de então na criação de suas obras.


A-B-A (chapa-corda-chapa). Ernesto Neto, 1987.
Esse fiozinho passava por um buraquinho e esse buraquinho passava o fiozinho e dava o nó numa porca. E aí em algum momento, eu simplesmente fiz um furo só na chapa e passei uma corda e dei um nó. Eu perdi muita sensualidade nisso, mas eu ganhei em termos de estrutura, em termos de poesia, no entender de que simplesmente aquele nó estava segurando tudo. Então, esse princípio de que um nó segura o mundo foi o que me norteou. Foi assim o que me alinhou nessa questão da relação. Voltamos a falar em relação, da relação entre uma coisa e outra, essa passagem. Como que a gente cumprimenta uma pessoa, como que a gente abraça, como que a gente beija ou como que a gente bate mesmo se for necessário, né? Então esse se relacionar tem um lugar de poesia, de dança, como que a gente dança nesse mundo. Eu gosto das coisas bem simples, eu já tentei costurar negocinho, fazer argolinha e tal, fica mais fraco. O nó é muito mais forte! Eu adoro a construção através do nó, sabe? Você liga uma coisa à outra e dá um nó. É muito mais simples, próximo da gente, popular (ERNESTO NETO, 2025).
Foi através, portanto, das palavras do artista e da minha experiência em cartel que pude apreender o que Jacques-Alain Miller diz segundo o ultimíssimo ensino de Lacan: “o escrito não implica um dizer, mas sim um mostrar”. Isto é, não se trata de extrair a posição de enunciação no escrito, mas de expor “um escrito que possa servir”[4].
Foi, então, a partir da obra de arte de Ernesto Neto que pude verificar e me apropriar disso que pode servir, e buscar, através deste texto, escrever isso que se extrai de uma experiência, da minha, e que se enlaçou em um cartel. Acredito que o escrito textual seja uma forma primordial de mostrarmos, atestarmos ou testemunharmos esse algo do que se produziu nesta experiência.
A partir dos restos do artista, pude me servir para, ainda a partir dos meus, estabelecer um laço transferencial endereçado à Escola e à psicanálise que nela praticamos.

