Luisa Moraes[1]
A partir do argumento que fundamenta o tema das 32as Jornadas Clínicas da EBP-Rio, intituladas Transferência na prática, que vêm no rastro e em relação de contiguidade com as 31as Jornadas, A palavra e a pedra: interpretação em análise, algumas questões em torno da função do analista foram suscitadas e desdobradas em mais um giro.
Se vínhamos pensando desde as últimas jornadas na relação entre interpretação e transferência – uma podendo ser condição e consequência da outra –, quais seriam os efeitos de pensarmos a introdução da função do analista como um terceiro elemento nesse binômio? Aventar a hipótese desses três termos (interpretação, transferência e função do analista) se enlaçando e se sustentando uns aos outros mutuamente pode nos ajudar na clínica? Faz deslocar a pergunta sobre o que vem antes: transferência ou interpretação?
Lacan pergunta em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” quem é o analista, e a isso segue indagando: “Aquele que interpreta, tirando proveito da transferência? Aquele que a analisa como resistência? Ou aquele que impõe sua ideia de realidade?”[2]. Ele parece responder à pergunta inicial com outra questão, título da segunda seção do texto: “Qual é o lugar da interpretação?”[3].
Quanto à relação entre analista e interpretação, Ricardo Seldes afirma: “Se a interpretação ocupa o lugar que lhe corresponde é porque o analista está em outra parte, e não nesse lugar transferido pelo paciente.”[4] Seldes situa ainda o sujeito suposto saber enlaçando interpretação e transferência, e entre eles, o desejo do analista “como o que permite que este se faça causa do desejo do analisante”[5]. Temos, portanto, algo que vai ao encontro de nossa premissa: o lugar do analista diretamente definido pelo lugar da interpretação e pelo lugar de onde se responde à transferência, sustentando, simultaneamente, que interpretação e transferência operem. Tentaremos, então, articular de que forma esses três termos podem se enlaçar, partindo da função do analista.
A função do analista parece ser um termo privilegiado para pensarmos a transferência, pois suposições de saber e demandas de amor podem ocorrer em outros contextos que não o de uma análise, de modo que o que confere o valor da transferência na prática analítica é o lugar de onde se responde. Ao não corresponder ao amor, é possível operacionalizá-lo. O analista, enquanto destinatário do inconsciente, se estiver ocupando determinada posição, ao receber uma demanda de amor, pode retornar ao remetente uma mensagem invertida, ou mesmo vazia, fazendo essa carta chegar ao seu real destino.
A respeito do lugar do analista, diante da transferência do paciente, Freud, em “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”[6], nos adverte sobre a necessidade da abstinência por parte do analista em relação à não satisfação dos desejos imediatos do paciente no contexto da análise. Já Lacan nos diz que o único sentido possível para a neutralidade analítica é o da não participação nas paixões[7]. Jacques-Alain Miller, por sua vez, afirma ainda que não há objetividade em um caso clínico, chegando mesmo a concluir que o caso clínico não existe, na medida em que o analista está sempre implicado aí pelos efeitos da transferência[8].
Assim, não há objetividade, nem tampouco intersubjetividade. Em vez disso, a transferência, no que essa convoca o analista a ocupar sua função, parece apontar para algo da objetalidade, isto é, da dimensão do objeto em questão em uma análise. Se, por um lado, há a repetição dos laços libidinais infantis do paciente, por outro, algo se atualiza na transferência, e que não pode se dar sem a presença encarnada do analista. Como emprestar seu corpo e seus traços, que podem ser tomados como significante qualquer na transferência, sem se confundir com o lugar de grande Outro dado na fantasia do sujeito, e tampouco responder enquanto sujeito?
Se o analista é aquele que dá suporte, e também precisa suportar a transferência, a transferência, por sua vez, seria o que permite que o discurso do analista seja posto em marcha. É ela que possibilita que se possa sustentar, tanto para o analisante, como para o analista, uma interpretação, no que esta pode apontar para o impossível de suportar do real.
Função da transferência e a interpretação
No Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise[9], Lacan define a transferência como atualização da realidade sexual do inconsciente. Na lição intitulada “Da interpretação à transferência”, ele começa por situar o amor como um efeito da transferência, e que intervém em uma função essencial: a de tapeação. Sobre essa dimensão de engodo do amor de transferência, Lacan acrescenta que “o sujeito enquanto assujeitado ao desejo do analista, deseja enganá-lo dessa sujeição, fazendo-se amar por ele”[10]. Ainda no campo narcísico, Lacan destaca a função da identificação ao analista, no lugar de ideal do eu, como um modo de o sujeito se manter satisfatório e amado, tal como teria sido no estádio do espelho. Esse viés da transferência apontaria para a alienação, na qual o sujeito se constitui em relação ao Outro, e que se atualiza na relação com o analista.
Nesse ponto, Lacan ressalta a transferência em sua face de resistência, ao fechar o sujeito aos efeitos da interpretação, opondo-se à revelação inconsciente. Analisar a transferência junto ao paciente seria então não levar em conta a divisão do sujeito. É nesse momento que a interpretação se torna decisiva, pois é pela boca do analista, como discurso do Outro, desde fora, que se apela à reabertura do inconsciente, que se efetua, no entanto, a partir de dentro. Aí se revelam a crise conceitual e a contradição da função da transferência, no que fazem coincidir o momento de fechamento do inconsciente e “o ponto de impacto do porte interpretativo”[11], fazendo com que Lacan a conceba como um nó górdio[12], em uma “antecipação topológica”[13].
Há, portanto, um paradoxo em sua função, e uma distinção entre duas vertentes da transferência, imbricadas ao longo de um tratamento: a pulsional, que leva ao fechamento do inconsciente; a significante, associada à suposição de saber e ao inconsciente, que torna possível o avançar do trabalho da análise.
O que é suposto saber ao analista é a significação, ponto absoluto de encaixe e resolução entre o desejo e aquilo que se trata de revelar pela interpretação[14]. Contudo, esta vem subverter a relação que faria com que o significante tivesse, por efeito, o significado, e faz, ao invés disso, surgir significantes irredutíveis, sem sentido[15]. O fundamental é que a interpretação aponte, para além da significação, para o significante ao qual o sujeito está assujeitado.
Portanto, o amor de transferência é um efeito e, por que não dizermos, uma defesa em relação ao assujeitamento do sujeito ao que este supõe ser o desejo do analista, tomado como desejo do Outro, na mesma medida em que o sujeito está também assujeitado ao significante. Se tomamos o sujeito como efeito do significante, a função do significante no real pode instituir um novo lugar para o sujeito. O desejo do analista tem uma orientação que é a de obter a diferença absoluta, a de “confrontar o sujeito ao sem sentido do significante primordial, índice do real”[16].
Função da transferência e desejo do analista
Se o movimento da transferência vai no sentido de suprir, através das identificações, o problema fundamental da relação do desejo com o desejo do Outro, o desejo do analista vai no sentido inverso, o de isolar o objeto a e colocá-lo à maior distância possível da identificação que o analista é convocado pelo sujeito a encarnar. “Portanto, o lugar que o analisante coloca o analista na relação transferencial não pode coincidir com o lugar almejado / visado pelo analista. Deve haver um desencontro aí, um corte, que Lacan nesse momento de seu ensino relaciona ao desejo do analista.”[17]
Assim, se inicialmente Lacan chama a atenção para um primeiro tempo da transferência, no qual a relação do sujeito com o analista gira em torno do ideal do eu, ele desvela que, para além da alienação, há uma outra função
[…] que institui uma identificação de natureza singularmente diferente, e que é introduzida pelo processo de separação.
Trata-se desse objeto privilegiado, descoberta da análise, desse objeto cuja realidade mesma é puramente topológica, desse objeto do qual a pulsão faz o contorno […] – o objeto a[18].
Essas duas funções paradoxais da transferência podem vir a promover alienação e/ou separação, fechamento e/ou abertura do inconsciente, conduzir rumo ao ideal do eu e/ou ao objeto a, em torno do qual gira o movimento do desejo. Apesar do entrelaçamento entre elas, essa distinção permite ou não uma travessia do campo das identificações e da fantasia, a partir da revelação do desejo do Outro na constituição do desejo enquanto êxtimo. Para tratar desse manejo da transferência, Lacan desenvolveu o conceito de desejo do analista, diferenciando-o da contratransferência tão trabalhada pelos pós-freudianos.
Marcus André Vieira[19] nos alerta para os perigos tanto de essencializarmos a função do analista, como o de idealizarmos sua negatividade. O desejo do analista é sua enunciação, e sua função é, portanto, relacional e contingente. “Quando Lacan enfatiza o desejo do analista, destaca o quanto esse desejo é sem demanda, fora do sentido. Corremos o risco, porém, de considerá-lo pura negatividade em uma idealização do não ser e da falta.” A função do analista não é o que Lacan nomeou objeto a, em sua pura negatividade; ela exige presença e existência do corpo do analista.
Ana Lucia Lutterbach afirma que, em uma análise,
[…] insinuam-se indícios do objeto de gozo que supostamente o sujeito foi para o Outro. Quando o gozo se introduz no saber, o analista como objeto externo torna-se um operador do qual o analisante se serve para deduzir sua posição de gozo. Este lugar do analista a serviço da operação analítica é o que Lacan chamou semblante de objeto[20].
Lutterbach nos indica ainda que há uma distância entre o analista se identificar ao objeto e fazer semblante de objeto a, pois, como semblante, é possível que esse objeto se destaque na transferência, permitindo a construção e travessia da fantasia. Esse “fazer semblante” seria mais uma posição do que uma ação, sendo a única sustentável na transferência, na medida em que o “próprio objeto do gozo é inapreensível e só pode ser abordado como semblante”[21].
Enlaçamentos possíveis, um nó?
Retomando, então, nossa tríade, pensamos na analogia que Lacan faz em “A direção do tratamento…”[22] entre o campo de batalha do general e o campo de ação do analista. Ele distingue três registros: a tática, a estratégia e a política. A tática estaria relacionada à sessão; a estratégia, ao conjunto de sessões/o tratamento; e a política, ao resultado e às possibilidades de uma análise. Lacan situa a interpretação no plano da tática; a transferência, no da estratégia; e o desejo do analista, no da política. Ele indica que o grau de liberdade do analista decai progressivamente: é mais livre no plano da tática, pois interpreta como for possível, dependendo apenas das oportunidades e dos ditos do paciente; torna-se menos livre no plano da estratégia, uma vez que ela é limitada pelo lugar que é colocado na transferência; e menos ainda no plano da política, posto que o desejo do analista é sempre o mesmo: “queremos sempre fazer valer o inconsciente como abertura. Manter vivo na civilização o modo de lidar com o real que Freud inventou”[23].
Podemos pensar o desejo do analista como o que sustenta a função do analista, e que, enquanto política da psicanálise, delimita justamente a posição do inconsciente em seu lugar de resto. Parece haver nessa política, nisso que é sempre o mesmo do desejo do analista, uma orientação clínica para e pelo real. Miller define que o que é constante em uma análise é a contingência de que o real se inscreva[24]. Se a interpretação e a transferência são contingentes; tática e estratégia, a função do desejo do analista, como política, tornam-se condições necessárias a posteriori para que elas possam ocorrer?
Na conversação do Eixo 4 para o XI Enapol, Começar a se analisar, pergunta-se como situar o início de uma análise, e se o ato analítico seria o marco zero, que faz existir o inconsciente e, com isso, o par analista-analisante. Aposta-se, então, na
possibilidade lógica da existência prévia do analista à análise e ao analisante. Não se trata de fazer consistir o analista, mas sim de uma decisão ética. Quem está lá, está em potência, e esse analista em potência é, de fato, o analisado, pois o analista só poderá advir a partir desse lugar de onde teria tratado em si algo desse sem sentido[25].
Isso permitiria ao analista sustentar a operação analítica; seria algo que antecede as primeiras entrevistas: sua posição analisante. Sua própria análise possibilita que o analista perceba seu modo de gozar em sua contingência, e que algo desse real sem sentido possa se inscrever. “O analista como presença, ocasião para a contingência […]”[26].
Como podemos pensar, então, a articulação entre os três termos que estamos trabalhando? Quando Lacan inaugura o enlaçamento do ternário RSI (Real, Simbólico e Imaginário) a partir do nó borromeano, em 1973, isso traz consequências para o que ele já havia desenvolvido em torno dos três registros na conferência “Simbólico, Imaginário, Real”, de 1953. Apesar de essas três dimensões serem distintas conceitualmente, não se pode separá-las, pois o operador de cada uma é relativo às outras, isto é, depende da relação entre elas. Ao se aprofundar na lógica nodal, Lacan se interessa precisamente pela forma enigmática como se unem, e o que se torna determinante é a própria amarração. Esses elos de diferentes consistências são interdependentes, ou seja, caso um dos elementos se desfaça, todos se desarticulam. Contudo, não há um ponto triplo de junção, no qual poderiam se confundir; o enodamento se dá em torno de um vazio, onde Lacan localiza o objeto a. Eles permanecem amarrados sem que haja uma relação dual entre qualquer dos componentes, de modo que o nó apresenta a não-relação sexual, não pela sua ausência, mas porque “permite que o atamento do nó porte uma definição positiva”[27], na medida em que dá materialidade à não amarração a dois. Não há relação sexual, há nó. A topologia borromeana responde também à questão a respeito da anterioridade – dimensão temporal – e da localização – dimensão espacial – da origem entre as dimensões propostas por Lacan. A partir da equivalência entre seus elos, nenhum se sobrepõe aos demais, não havendo hierarquia de importância ou ordem cronológica[28].
Essas propriedades da topologia borromeana nos ajudam a pensar esse outro ternário para o qual apontamos, na medida em que, em um contexto de uma análise, transferência, interpretação e função do desejo do analista só podem operar se enlaçados juntos. E ainda, a incidência de qualquer um dos campos pode vir a ressignificar o outro a posteriori. Seldes parece supor, no trecho que citamos no início deste trabalho, um quarto elo, que seria o do desejo do analista, enlaçando os outros três – transferência, interpretação e sujeito suposto saber. Nessa montagem, o desejo do analista seria então o que colocaria em movimento, enlaçando e furando os outros.
Este trabalho, portanto, foi um esforço de situar esses três conceitos, visando o que se coloca entre eles, isto é, a forma como se articulam. A possibilidade de pensá-los como um nó parece suportar certa suspensão da cronologia e da questão, ou impasse, em torno do que viria primeiro, interpretação ou transferência. O que o recurso à topologia aqui faz é mais do que acrescentar elementos, de dois para três e quatro; mas apontar para uma outra forma de relação, uma amarração.

